Impacto Organizacional de Redes nas Corporações

Ana Helena Ribas de Almeida (*)


Desde os primeiros tempos da sua existência o homem sente uma necessidade imperiosa de se comunicar. Através de várias maneiras ele tenta, no decorrer das civilizações, melhorar e otimizar os meios de comunicação a seu dispor.

Quando Samuel Morse, em 1838, utilizou a eletricidade para as primeiras tentativas de emissão de ondas telegráficas, abriu um caminho inesgotável de evolução para esses meios de comunicação. Telefone, rádio, telex, televisão, fax, e, finalmente, redes de computadores foram consequências diretas desta descoberta.

No início, o computador era um fetiche mastodôntico enclausurado num imenso aquário de vidro, com condições ambientais especiais, manipulado por especialistas de alto nível, profissionais de informática de jaleco branco de laboratório, inalcançável pelos meros mortais. A tecnologia de informática não era vista como parte integrante da estratégia da empresa, mas apenas como uma ferramenta de processamento de dados da área administrativa.

Na década de 80, o computador se transforma numa pequena caixa que cabe em cima de qualquer mesa. Mas ainda é brinquedo sofisticado de alguns "experts".

Não demora muito, pouco menos de dez anos, e ele está disponível para todos os interessados, especialistas ou não, com interfaces amigáveis e operação extremamente facilitada. Assim como o automóvel é utilizado por qualquer pessoa que se capacite para dirigir, o computador pessoal se torna acessível para qualquer um que se interesse por ele.

Não contente com esta disponibilidade, o homem ainda conseguiu interligar as máquinas e fazer com que elas "conversem" entre si, criando mais um canal de comunicação, não mais somente entre homens, mas entre homens e máquinas. É o surgimento das redes, inicialmente restritas ao pequeno espaço geográfico dos escritórios ou fábricas. A rapidez do desenvolvimento das tecnologias provocou uma explosão deste espaço, e as redes hoje abraçam o mundo.

Especialmente nos últimos 20 anos, o computador teve lugar de destaque nas estruturas organizacionais, agindo em todos os níveis, desde o chão de fábrica até a alta gerência.

Com o desenvolvimento da tecnologia de comunicações em informática, a telemática, as corporações, tanto empresariais como governamentais, tiveram que modificar suas estruturas para atender à necessidade imperiosa de implantar redes locais e conectá-las entre si e a outras redes externas.

Várias tentativas de melhor posicionar a área de informática no organograma da empresa tem sido realizadas, sempre buscando otimizar a utilização dos recursos computacionais disponíveis. Além de possibilitar a conexão inter-máquinas, as redes disponibilizam democraticamente o uso de periféricos e equipamentos especiais.

Da parte dos dirigentes, ter a informática sob sua jurisdição ainda significa domínio sobre estes poderosos recursos, baseado no paradigma do processamento centralizado. Aos poucos, vão se apercebendo da mudança que este paradigma vem sofrendo com a difusão da intercomunicação entre equipamentos.

A informação se tornou, nesta década, o produto mais precioso do mercado, e transformou a área de informática das instituições na área de maior importância estratégica da sua estrutura.

A transferência das informações de bancos de dados centralizados para os do tipo distribuídos permite esta mudança de enfoque. As informações não podem mais ser "propriedade" do CPD-Centro de Processamento de Dados, mas devem estar sob a responsabilidade direta dos que as geram, em suas máquinas individuais, criando-se uma co-responsabilidade pela integridade e atualização dos dados.

Dentro da atual tendência à horizontalização das empresas, com o achatamento da pirâmide hierárquica e a disseminação da gerência participativa, estas idéias parecem mais coerentes.

A necessidade de um ajuste na engrenagem responsável pelo processamento das informações corporativas para manter o CPD "enxuto" exige novas atitudes. Equipar os funcionário com microcomputadores atualizados, adotar o ambiente descentralizado com a implantação de plataformas cliente/servidor e terceirização foram soluções encontradas nas grandes corporações que não têm como objeto o processamento de informações, e influenciam na mudança do enfoque da informática na sua estrutura.

A coexistência de aplicações departamentais executadas em redes locais com sistemas gerais controlados por mainframes também é uma opção de estrutura informatizada para as corporações.

Esta reestruturação custa alguns milhares de dólares, que devem ser encarados como investimento, para ter a telemática como aliada corporativa.

Porém, como toda mudança de paradigma, esta não é implantada sem custos sociais internos na empresa. A dificuldade de comunicação entre os profissionais de informática, pessoal altamente técnico e individualista, e os de outros departamentos exige a implantação das novas tecnologias paulatina e individualizadamente. A modificação das metas de cada um tem que ser trabalhada para não gerar desentendimentos.

A necessidade de criar uma visão global da organização para distribuir eficazmente as tecnologias faz surgir um novo tipo de profissional, o gerente de negócios: um especialista em processamento de dados, técnico em informática, com visão gerencial, condutor da aplicação das tecnologias aos negócios.

É preciso, então, romper barreiras departamentais e organizar os processos, para conseguir o que se pode chamar de computação colaborativa exercida por equipes interdepartamentais complementares (workgroup computing).

Este procedimento é indispensável em toda e qualquer corporação que pretenda se manter atuante na nova sociedade que está se formando neste fim de século, a sociedade global informatizada. Informatização deve ser entendida no sentido da obtenção e disponibilização de informações e não no sentido físico, técnico, de evolução, construção e operação de computadores.

O levantamento da situação organizacional das corporações frente à implantação de redes locais e sua conexão a redes de longa distância é um trabalho que abre amplo horizonte para análises sócio/culturais.


(*). A autora:
Analista de Sistemas da EPAGRI — Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina S/A.
Participante do Comitê Gestor para Projeto e Implantação da Rede Catarinense de Ciência e Tecnologia (Florianópolis, 1994).
Email: epagri@inf.ufsc.br


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