A Internet no Contexto da Pesquisa sobre Novas Mídias

Esther Imperio Hamburger (*)


O sentido desta sessão é pensar aspectos sociais e culturais da internet no contexto de pesquisa nas áreas de Educação e Ciências Sociais sobre a mídia eletrônica no Brasil. Trata-se de especular sobre as maneiras pelas quais o estudo da internet pode ajudar a pensar aspectos de outras mídias e vice-versa.

Desde logo o tema se justifica. As exposições do período da manha salientam uma confluência temática entre os dois campos. A internet suscita questões e discursos muito parecidos com as questões que inspiram o debate em torno da mídia eletrônica. Em ambos os casos ha discursos radicalmente polarizados, representando atitudes ufanistas e atitudes terroristas diante dos avanços da comunicação mediada pela tecnologia eletrônica. Temas como a relação entre os contextos local e global na nova ordem mundial transnacionalizada; a redefinição do papel do Estado e dos contornos das esferas publicas e privadas; a dominação politica exercida através da mídia e a necessidade do controle democrático sobre os meios de comunicação; a alienação produzida por uma tecnologia que se imiscui nas relações entre as pessoas, levando-as a preferir a assepsia da tela ao calor do contato pessoal direto; perpassam a bibliografia sobre televisão, vídeo alternativo, satélite, cabo, antena direta.

Se essa temática comum justifica o esforço de pensar a internet ao lado de outras mídias eletrônicas, ela não deve funcionar como uma camisa de força que subsuma as especificidades de cada uma. Ao contrario, a riqueza da comparação possivelmente se encontre nas diferenças e radicalidades de cada meio. E possível que características de uma mídia inspirem abordagens sugestivas para outras mídias, ate no sentido de superar algumas dessas polarizações teóricas, que estimulam, mas também, em certo sentido, aprisionam a pesquisa sobre meios de comunicação eletrônica.

Pensar a internet no contexto da mídia eletrônica pode ajudar a reflexão sobre ambos. As questões comuns suscitadas pelos dois fenômenos, salientam uma dimensão de continuidade da internet com mecanismos de comunicação anteriormente existentes, que talvez corresse o risco de ser encoberta pela aura de novidade que cerca a rede.

Por outro lado, talvez levando ao extremo elementos presentes em estado menos puro em outras mídias, a internet chama atenção para a dimensão da interlocução entre produtores e receptores, pouco explorada até hoje pela pesquisa sobre a mídia eletrônica. Por ser radicalmente interativa, a internet questiona a alteridade com que a literatura sobre meios de comunicação de massa muitas vezes aborda fenômenos ligados a tecnologia eletrônica. Tendo a internet, a principio manipulável por todos, como referência, fica difícil pensar que a comunicação eletrônica de massa se esgote nesse "outro", que de algum lugar exterior, ora manipula, ora é resistido por audiências que interpretam as mensagens televisivas de acordo com as especificidades de seus contextos locais.

Vou me concentrar sobre o meio televisivo, sobre o qual tenho pensado mais. Embora as formas de interação entre telespectadores e produtores sejam bastante desiguais - elas mesmas sujeitas muitas vezes a outras mediações como no caso das pesquisas de audiência e de opinião - elas constituem o fenômeno televisivo ao lado de outros fatores já mais elaborados pela bibliografia. Emissoras de televisão buscam atrair a atenção do publico atendendo a suas expectativas. Os telespectadores por seu lado, procuram na televisão informações e elementos que lhes facilitem a movimentação e a identificação em uma sociedade de mercado, onde múltiplas identidades parecem disponíveis a quem souber dominar as informações necessárias para se apresentar como parte integrante de uma ou mais "tribos".

E possível então, pensar abstratamente na relação entre produtores e receptores como um jogo em que cada uma das partes exerce uma fascinação, e busca dominar as regras de movimentação da outra. Programas interativos, programas de auditório, ou programas de qualquer formato que incluam algum tipo de relato pessoal de casos "reais" vivenciados por telespectadores, expressam um pouco dessa dependência de uma interlocução viva com o publico que a televisão não dispensa. Embora meio de comunicação de massa, a comunicação televisiva se apóia em vínculos de cumplicidade com seu publico, construídos através de mecanismos diversos como o voto-resposta a alguma questão formulada pela emissora, a performance ao vivo, relatos pessoais íntimos proferidos em frente as câmeras, contatos pessoais de autores e produtores com telespectadores amigos, pesquisas. Profissionais de televisão de sucesso são aqueles capazes de "antenar" telespectadores potenciais, e exibir imagens, expressões, sons e narrativas capazes de provocar suas expectativas.

A identificação entre produtores e receptores que a comunicação televisiva supõe, implica um pouco em uma certa intercambialidade de papeis. Os profissionais de televisão se colocam no lugar do publico, e o publico se coloca no lugar de quem faz televisão. Simultaneamente seduzidos e chocados, fascinados e repelidos, pelas imagens veiculadas pela televisão, telespectadores se tornam atores e atrizes em potencial. Siderados pela difusão incontrolável de imagens e estimulados por um número crescente de programas interativos, os telespectadores sentem que devem e podem exibir suas experiências pessoais na tela. Cirurgias plásticas, vaidade, conflito racial de repente se tornam tão legítimos quanto notícias políticas do dia a dia. A maior parte dos telespectadores esta preparada para desempenhar em frente a câmera de TV, seja em enquêtes na rua, seja nos auditórios ou pelo telefone.

Para alem dos conteúdos ideológicos veiculados pela televisão, o meio televisivo penetra a intimidade das casas trazendo repertórios anteriormente não disponíveis nesse contexto. Ela traz assuntos públicos para o espaço privado e aborda temas íntimos em cadeia nacional. Ao difundir assuntos anteriormente confinados a arenas especificas para públicos que extrapolam esses grupos, a televisão rompe com controles sociais tradicionais previamente definidos. O faz de maneiras imprevistas e não planejadas. Mas do que atribuir um caráter positivo ou negativo a essas mudanças, trata-se de entender os mecanismos de interlocução envolvidos em cada caso.

Ao transformar imagens intimas da família, do amor, da sensualidade e do casamento em assunto publico, programas televisivos rompem com qualquer controle exclusivo que autores, pais, mães, maridos, esposas, crianças, professores, padres, governantes, intelectuais, gostariam de desfrutar sobre seu publico, seus pares ou subordinados. Nessa sua potencialidade latente de sugerir vínculos alternativos as tradicionais instituições sociais, a televisão também se assemelha a internet. Mas aqui já estou entrando na área dos expositores desta mesa.

A partir de perspectivas e pontos de vista bastante diferentes, os dois expositores dessa mesa problematizarão as diversas relações possíveis entre novas mídias e internet. Nelson Pretto, professor da Faculdade de Educação da UFBa e coordenador da Rede na Bahia vai falar sobre a mídia eletrônica no contexto da educação no Brasil. Seu trabalho chama a atenção para os desafios colocados pelos avanços tecnológicos para um sistema educacional básico extremamente deficiente como o nosso. Sua intenção e problematizar as maneiras pelas quais as novas mídias eletrônicas, como o vídeo, a comunicação via satélite, seja via televisão, seja via internet, podem ser absorvidas pela educação. Nelson diferencia a apropriação formal fácil da tecnologia de uma profunda e necessária reconceituação da educação.

Em seguida, o professor Venício de Lima do departamento de C. Política da Universidade de Brasília e coordenador do grupo de trabalho sobre mídia e politica, vai expor a trajetória da pesquisa em mídia na área de C. Sociais no Brasil, enfatizando os temas e referenciais teóricos que marcaram as diversas fases da investigação nessa área relativamente recente de trabalho no pais. Ao final de seu trabalho, o professor especula sobre os desafios colocados para o estudo dos meios de comunicação de massa pelas recentes inovações tecnológicas que os aproximam de meios de comunicação interativos. O mesmo cabo responsável pela transmissão de 50 canais de TV nos Estados Unidos e também responsável pelo sistema de telefonia.


(*). A autora:
Pesquisadora do Cebrap
Articulista da Folha de São Paulo
Faz PhD em Antropologia na Universidade de Chicago
Email: eihambur@usp.br


retorna ao índice dos anais