Vínculos sociais estabelecidos através das redes relacionados com os vínculos sociais convencionais: propostas de discussão.

Pedro Manuel Sanchez Gil (*)


Ao estudar os novos tipos de relações sociais que estabelacem as redes se faz necessário determinar como se dá a constituição de sujeitos coletivos dentro das dinâmicas que implicam esta nova tecnologia comunicacional, especialmente dentro dos usos do correio eletrônico, das Conferências Eletrônicas e dos Newsgroups.

O primeiro dado relevante que se coloca ao estudar os vínculos sociais que estabelecem os usuários das redes é que estes vínculos se dão na forma de uma comunidade de interesses, mas não se constituem num movimento social, uma vez que todo movimento social tem como caraterística uma reflexão sobre a situação do próprio grupo dentro da sociedade e propõe uma ação no campo político.

Uma pesquisa sobre os novos tipos de relações sociais que se originam a partir das redes eletrônicas de computadores poderia se restringir ao âmbito de grupos formados a partir deste meio, possibilitados por uma nova forma de comunicação que extrapola o entorno geográfico, os limites físicos entre cidades, Estados, Nações, etc.

Mas no que diz respeito ao uso das redes por parte de movimentos sociais já existentes - como grupos gays, feministas, ambientalistas, etc. - não é possível fazer sua avaliação sem que a lógica própria das defesas de suas idéias se transfira para a pesquisa do novo ambiente comunicacional das redes.

O que é relevante para o estudo da criação de grupos diz respeito a (1) os conteúdos das mensagens que circulam nas redes. Determinar o que se transmite implica na avaliação de níveis de informação e conhecimento que circulam nas redes. É difícil avaliar qual parte dessa informação será efetivamente útil aos grupos (tanto de organizações civis, quanto os de pesquisas teóricas com projetos cognitivos) mas é imperativo esclarecer que não só as formulações teóricas da realidade (científicas ou filosóficas) são "conhecimento". Também devemos incluir dentro da noção de conhecimento as imagens do entorno possuídas por qualquer pessoa.

Dentro desta perspectiva, estaria incluída a reformulação da visão do seu meio causada pelo impacto de confronto das opiniões, relatos, observações de estrangeiros, nacionais morando no exterior e o usuário local. E (2) os diferentes tipos de relacionamento que demandam as diversas modalidades da rede. Graus de compromisso entrem o usuário e o grupo divergem quando está se falando de grupos de news, listas de discussão moderadas, não-moderadas, lista de notícias, etc.

Para uma investigação que relacione estas novas modalidades comunicacionais com vínculos sociais convencionais, é irrelevante saber o peso e potencial do conhecimento teórico que circulam nas redes, mas sim, como a realidade do senso comum pode ser influenciada pelo contato com fontes diversas, múltiplas e distantes.

Uma aproximação poderia ser feita através do conceito teórico da interação social na relação face-a- face que desenvolve a Sociologia do Conhecimento. Esta relação diz respeito à performance de dois seres humanos no seu relacionamento cotidiano quando encontrados frente a frente, no momento que o aqui/agora de dois indivíduos coincide. Essa é tida como a experiência básica no relacionamento com a sociedade e é também a base de todos os outros relacionamentos e da apreensão da realidade na vida cotidiana.

Há uma analogia entre a interação que se dá na presença física da outra pessoa e o caráter interativo das redes. Embora as redes prescindam da coincidência no espaço e no tempo, elas possibilitam o acesso a subjetividades que têm interesses comuns e que, de um modo especial, deixam de ser anônimas sem serem vistas, mas passam a fazer parte do entorno produtor de sentido.

Uma pesquisa tal, por um lado, se aproxima da determinação do espaço que ocupariam estas novas dinâmicas grupais entre as demandas individuais e as conformações institucionais. Por outro lado, se ligaria ās tendências de coletividades dentro do Brasil.


Referências bibliográficas:

BERGER, Peter & LUCKMANN, Tomas.
A construção social da realidade. Petrópolis, Vozes, 1985.

SADER, Eder.
Quando novos personagens entram em cena. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988.

LACLAU Ernesto.
"Os novos movimentos sociais e pluralidade do social". In: Revista Brasileira de Ciências Sociais. Vol. 1, nº 2


(*). O autor:
Mestrando no Progrma de Pós-Graduação e Integração Latino-Americana, Universidade de São Paulo (PROLAM-USP)
Email: pedromsg@usp.br


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