Knoware — o espaço/tempo da informação

Gilson Schwartz (*)


0.
A Internet é apenas mais um capítulo de uma sequência de transformações sociais no século 20 cujo aspecto mais evidente é a hipertrofia da informação ou (para usar uma expressão tipicamente sociológica) do "campo simbólico".

1.
Há duas dimensões cruciais na avaliação dessas transformações. A primeira envolve a requalificação do espaço/tempo. A segunda equivale a uma reavaliação dos processos responsáveis pela socialização, já que tende a ocorrer uma hipertrofia da "instituição imaginária da sociedade".

2.
Como cautela preliminar, é preciso talvez vacinar-se face ao bombardeio de marketing que naturalmente acompanha o esforço de vendas de hardware e software que caracteriza o momento atual, assim como ās duas reações mais comuns frente ao fenômeno: o profetismo e o catastrofismo.

3.
O profetismo vê na formação de redes informáticas uma espécie de nova revolução emancipadora, um iluminismo virtual que seria capaz de suspender os conflitos sociais e ecnômicos existentes.

4.
O catastrofismo vê na formação dessas redes um evento derradeiro de desenraizamento, desterritorialização, alienação e opressão.

5.
São reações extremas e caricatas, frente ās quais procuramos a seguir desenvolver um exercício de moderação ou mediação, avaliando os impactos das redes no mundo da economia (ou seja, sobre mecanismos fundamentais de reprodução das sociedades capitalistas) e nos conceitos sociológicos mais amplos de reprodução e criação de campos simbólicos.

5a.
Frente a essas contraposições, na economia e na sociologia, no espaço-tempo e na instituição do imaginário social, há também o terreno bastante movediço da filosofia da linguagem, em especial as variantes pragmáticas que a partir de Wittgenstein colocam a cultura e a linguagem no mesmo campo. Há, nesse espaço simbólico, lugar até mesmo para a identificação da Internet como campo religioso, estético e moral.

6.
Na economia, a tradição consagrou duas grandes famílias teóricas. De um lado, a descoberta do mercado como espaço de resolução de conflitos levou a uma longa tradição de análises de mecanismos de equilíbrio onde o valor das mercadorias é determinado por forças que ganham uma dimensão objetiva. O equilíbrio entre oferta e procura faz do valor um atributo que as mercadorias encontram no jogo das forças do mercado.

7.
O contraponto ao mercado foi surgindo na busca de atributos próprios ao processo de produção de mercadorias, de tal sorte que o valor não é um resultado do mercado mas sim um potencial que pode ou não ser confirmado pelo mercado. Na primeira visão, o mercado determina o valor, no enfoque alternativo, a produção de valores ganha uma lógica própria que, se nunca é totalmente autônoma frente ao mercado, guarda sempre uma relação de conflito ou mesmo contradição com os mercados tais como se apresentam.

8.
As visões que subordinam o valor ao mercado têm um ar de família que conduz ao liberalismo econômico e político. As visões que subordinam o mercado à lógica da produção do valor também guardam entre si um ar de família, ainda que entre os pensadores da "heterodoxia" as relações de parentesco sejam bem menos pacíficas. Ou seja, a ortodoxia tem mais pontos internos de convergência doutrinária que a heterodoxia (Ricardo, Marx, Keynes e Schumpeter apontam para horizontes menos convergentes que Smith, Walras, Hayek e Friedman).

9.
Espaço, tempo e informação - nas duas abordagens -, são categorias de certa forma subsumidas ou subordinadas.

10.
Tanto na economia do mercado como no contraponto da economia da acumulação, há uma espacialização da problemática.

11.
O desafio da teoria social contemporânea é produzir formas de entendimento que superem tanto a "destemporalização" quanto o caráter subordinado da questão "tempo". Ou seja, é preciso dar conta de realidades históricas que colocam em primeiro plano o conceito de "tempo real" (como alerta Paul Virillo, in Le Monde, Aug., 1995).

12.
Uma visão do "tempo real" exige não apenas a explicitação do "elemento tempo" no discurso, mas uma realização do tempo como meio ativo e reflexivo de pensar e agir no mundo real.

13.
Na economia do mercado, o tempo é sobretudo o tempo instantâneo que representa o equilíbrio entre oferta e procura nos vários modelos. Trata-se de um tempo reversível e, como o relógio, projeta sobre o espaço gráfico (na teoria) e físico (do mercado) mecanismos de ajuste que pressupõem e repõem a identidade inquestionável da "economia de mercado". Ou seja, são modelos cujo funcionamento nada mais é que a reafirmação na crença pressuposta nesse mesmo funcionamento. Assim, tautológico, o pensamento da economia de mercado volta-se sobre si mesmo e no movimento mesmo do pensamento elimina o tempo e, portanto, a história.

14.
O modelo de economia de mercado oscila assim entre a instantânea simultaneidade de todas as trocas "a qualquer momento" e a mais ingênua a-temporalidade.

15.
Nessa família de modelos, o preço é a informação por excelência e "desajustes de mercado" são, em algumas formulações mais recentes (anos 70 e 80), problemas de informação imperfeita.

16.
O pensamento da acumulação, heterodoxo, é mais resistente a generalizações tão simplificadoras. Justamente porque em sua maior parte esses economistas já colocavam a história como horizonte necessário da reflexão, como em Marx ou Schumpeter.

17.
Ainda assim, se tomarmos por exemplo o paradigma marxista,se a acumulação é sem dúvida um processo temporalmente orientado e se a construção imaginária do futuro (ideologias e utopias) já desempenham um papel crucial nos modelos explicativos, mesmo assim há uma recaída inevitável da espacialização.

18.
Acumulação, progresso e teleologia são conceitos siameses que andaram juntos por muito tempo. Uma história que "vai para a frente" é presa óbvia de uma metáfora espacializante.

19.
Talvez não seja por acaso que em vários autores, desde Marx, a construção de cenários futuros tenha desempenhado um papel retórico e imagístico tão importante.

20.
Mas seja como mercado, seja como acumulação, o valor que se resolve num tempo reversível e mecânico ou numa progressão positiva rumo à emancipação é sempre um valor que, de um ou de outro modo, já tem o seu caminho prescrito.

21.
O valor-utilidade, condicionante da oferta e da procura por bens no mercado, tem como matriz permanente um conjunto ou padrão de comportamentos sociais dados.

22.
O valor-trabalho, matriz da acumulação, aponta para um tempo socialmente determinado como "âncora" que afinal impede a progressão infinita da acumulação de capital. Mas mesmo na visão marxista essa acumulação assume um impulso eminentemente quantitativo e, justamente por isso, espacial.

22a.
A acumulação de capital, sendo quantitativa, também pressupõe a existência de um padrão e nesse sentido limita o papel que o modelo reserva à informação. E não há porque imaginar que o acúmulo quantitativo é necessariamente anterior ou causa a mudança qualitativa.

22b.
E materialização também é espacialização (em oposição a virtualização, que é por excelência uma temporalização, como revela a associação íntima entre realidades virtuais e a constituição de um mundo em "tempo real" cujo paradigma é o sistema financeiro globalizado).

23.
O fenômeno da informação é algo por excelência qualitativo.

23a.
Utilidade e trabalho são âncoras espaciais no sentido de servirem como delimitação de processos econômicos cruciais mas de natureza eminentemente espacial - o mercado e a acumulação.

24.
Tanto no liberalismo quanto na heterodoxia "marxista" há portanto, apesar das evidentes antinomias ideológicas e retóricas, um compromisso comum com a espacialização do tempo e a desqualificação do problema da informação.

25.
O desafio é portanto entender a economia invertendo ou negando esse compromisso espacializante e destemporalizante.

26.
Economia das redes. Economia Política da Política Econômica. Knowledge-based business. Economia virtual. Eis algumas das denominações possíveis para um conjunto de instâncias da vida econômica que no século 20 passaram a primeiro plano (e que não eram, portanto, historicamente predominantes nos séculos ao longo dos quais prosperaram as teorias econômicas).

27.
Trata-se de uma modificação conceitual na teoria econômica que vem sendo gestada ao longo do século 20. O fenômeno Internet é sem dúvida mais um capítulo, talvez crucial (no sentido de propiciar um "turning-point" epocal), desse processo de virtualização dos mecanismos essenciais da reprodução material da sociedade.

28.
A infraestrutura é uma supersetrutura!

29.
O primeiro e mais avançado domínio em que se processou a virtualização da economia são os sistemas financeiros. Os economistas que se atreveram a "re-teorizar" a economia tendo como elemento de essência o sistema financeiro colocaram essa dimensão virtual ou "expectacional-informacional" em primeiro plano. Foi o caso de Keynes, nos anos 20 do século 20, num movimento de revisão conceitual contemporâneo da revisão Wittgensteininana da lógica e da linguagem, e das irrupções conceituais na física, na matemática e na estética (especialmente a musical) que têm todos, em comum, um certo horizonte de relativização do espaço e problematização do tempo.

30.
As vanguardas artísticas caminharam portanto em paralelo com as vanguardas intelectuais e científicas no início do século 20. O tema em comum: a informação como elemento no qual o mundo faz sentido.

31.
Ou ainda: o elemento através do qual as pessoas dão sentido ao mundo.

32.
Desde então, os sistemas financeiros capitalistas passaram por inúmeras crises e desarranjos nos quais a natureza eminentemente informacional dessas "estruturas" fica evidente.

33.
Os sistemas financeiros podem ser entendidos como MUDs ("multi user dungeons") operando em escala global, na medida em que o "valor" das moedas (e portanto as oportunidades de desenvolvimento econômico de pessoas, classes, países ou regiões) oscila em função de movimentos altamente sensíveis das expectativas, dos consensos e das oportunidades de conformação coletiva a padrões e regras aceitos.

34.
O México foi um fenômeno de mídia (no sucesso e no fracasso), segundo vários analistas argutos. Eu ouvi pessoalmente de um Chief Executive Officer (CEO) de uma corporação industrial global que ele tinha sido "vítima de um fenômeno de mídia", pois a informação de que dispunha, como investidor, acerca do México, era apenas aquela disponibilizada pelos grandes veículos de mídia econômica internacional. Naturalmente o México não foi apenas um fenômeno de mídia, mas essa dimensão foi uma das cruciais e, no âmbito financeiro, que é o dominante na época atual, foi decisivo.

35.
Onde está o México "real" ou o Brasil "real"? Estão principalmente lá onde podem ser visualizados em tempo real.

36.
Do mundo das finanças para outras espécies de mercados há inúmeras modalidades de sobredeterminação dos elementos tempo/informação no entendimento da dinâmica econômica.

37.
Das empresas vistas como "learning-organizations" aos consumidores vistos como "learning-agents", passando pelo "knowledge-based business" e o amplo horizonte da cultura organizacional, o capitalismo revela-se como feito não de utilidades ou matéria acumulável, mas de informação reciclável.

38.
As organizações em forma de rede são por definição do tipo orientado por "informação reciclável". O aprendizado humano é um sistema de reciclagem de informação que na pior das hipóteses dá em condicionamento fascista de massa, numa melhor hipótese pode propiciar o lançamento de modas e marcas.

40.
Onde está o valor das coisas? Os economistas passaram mais ou menos três séculos tentando responder a essa pergunta. É a versão moderna da pedra filosofal: algo que transforme matéria bruta em ouro. Os economistas sucederam aos alquimistas com fórmulas mais sofisticadas e uma pretensão científica de dar dó.

41.
De fato, é possível transformar matéria bruta e inanimada em ouro. Ou seja, é possível CRIAR riqueza, não apenas distribuir a riqueza existente ou consumí-la até que não sobre nada.

42.
Os processos de criação de riqueza, entretanto, foram ao longo do tempo ficando cada vez mais complexos, complicando a vida dos economistas. E o mundo das marcas e do "marketing", praticamente sinônimo de criação de necessidades e de mercados, torna essa possibilidade de criação de riqueza a partir do "nada" uma realidade cotidiana - e a formação do valor (e a sua acumulação) uma função direta de mudanças qualitativas.

43.
Já não basta produzir uma gravata com bom tecido, é preciso ter "griffe" se se deseja vendê-la por um preço cuja origem não está no custo material de produção, mas na originalidade imaterial da criação.

44.
A Economia Política clássica, que legou nomes universais como Adam Smith, um dos pais do liberalismo moderno, apontava para a fonte mais óbvia e visível de valor: o trabalho. O direito burguês emergente fazia da propriedade privada a garantia fundamental da vida coletiva, e a propriedade privada era apresentada inicialmente como nada mais nada menos que direito à propriedade dos frutos do trabalho individualizado.

45.
Como se apresenta o trabalho na época das realidades virtuais? Ele também se apresenta sob forma virtual. O trabalho virtual está associado a uma classe de analistas simbólicos, que dominam o horizonte a partir de postos avançados nos domínios das finanças, do design, da tecnologia e da publicidade. É uma nova sociologia, para identificar e classificar uma nova elite, comparável talvez à dos sacerdotes do Templo (que podiam interpretar as Escrituras), mas em grande escala.

46.
O maior bilhonário de nossa época, Bill Gates, da Microsoft, é fundamentalmente um homem de "marketing", no sentido amplo de que associou sua imagem a um mercado e definiu as fronteiras de expansão do mercado a partir do seu padrão de qualidade.

47.
A marca passou a valer mais que a tecnologia em si mesma, pois tornou-se uma garantia de qualidade ou um "padrão". Seguir o "padrão Microsoft", especialmente numa indústria nascente como é a da produção industrial de software, tornou-se nitidamente uma vantagem competitiva.

48.
No mercado de informação é a informação que dita os limites do mercado.

49.
Segundo a revista "Financial World" em 1993, por exemplo, a marca Microsoft teve valorização de 33% em relação ao ano anterior. Passou a valer US$ 9,2 bilhões -cifra três vezes superior à de suas vendas no período. Outras "marcas" ou "padrões" de vantagem competitiva foram criados e disseminados, alguns até obsessivamente, como o "ISO 9000" (padrão que se usa para valorizar certas marcas, num jogo de espelhos que cria mais valor e reitera a confiança na "série ISO").

50.
Aliás, sobre ISO 9000 há uma história curiosa, envolvendo os japoneses. Eles finalmente decidiram abrir o mercado japonês de software, mas impuseram aos americanos a subordinação de seus produtos ao padrão ISO 9000. Acontece que os produtores americanos alegam que este padrão foi superado no setor há oito anos. Submeter as linhas de montagem de software a esse padrão seria o mesmo que recriar a indústria da estaca zero, refazendo todos os passos errados que foram dados. O incidente mostra que a força de um padrão, marca ou regra é enorme. Vale muito - que o digam os produtores de software americanos que gostariam de entrar mais facilmente no opulento mercado japonês.

51.
A relação entre economia e marcas (uma modalidade de informação que define quase todo o valor agregado do produto em muitos casos) é portanto direta, estomacal e indiscutível: o valor depende da identificação de um padrão.

52.
E quem consegue criar novos padrões, ou seja, novas marcas, pode criar novos mercados ou conquistar os já existentes.

52a.
Ou seja, já não se pode dizer que o mercado é um espaço delimitado. Como a sua fronteira é feita de informação, os limites de cada mercado são na verdade temporais, não espaciais, e o seu dinamismo depende diretamente da capacidade de uma sociedade de propiciar "aparelhos" de reciclagem de informação.

53.
O mercado não é um "onde", mas um "por quanto tempo". Valor e tempo se irmanam e onde há tempo real há oportunidades de acompanhar as flutuações inesperadas do valor.

54.
Da moda na alta costura à inteligência artificial na alta cultura, passando pelas ondas de opinião que rebatizam velhos mercados como "mercados emergentes", os ciclos de valorização e desvalorização se sucedem, afetando hábitos, valores e "divisões sociais do trabalho".

55.
Para Adam Smith a divisão do trabalho era como um tabuleiro, uma distribuição de tarefas. Hoje, a eficiência da empresa e do mercado está na capacidade de adaptar-se o mais rápida ou oportunamente ās mudanças de moda. De padrão. Ou, no caso brasileiro, de regras mesmo, como quando o governo tenta alterar via pacotes os rumos da acumulação.

56.
A "fronteira" do mercado é feita de informação. Parte fundamental do processo de geração e acumulação de valor consiste justamente em ser capaz de identificar novas configurações, a função criativa ou interpretativa ganha enorme relevo. Assim Schumpeter descrevia nos anos 20 o processo de inovação tecnológica, colocando-o no âmago das possibilidades de sobrevivência do capitalista (em oposição ao "rentier").

57.
Nas finanças ou no design arquitetônico, interpretar bem pode significar a diferença entre sobreviver ou não a uma crise. Os analistas simbólicos são esses delimitadores e identificadores de marcas, padrões, regras e, principalmente, de sua transformação.

58.
O valor torna-se um quantum, um pacote de energia que pode se dissipar a qualquer momento, assim como pode provocar reações em cadeia.

59.
Onde fica o trabalho nesse mundo informacional e, portanto, virtual? O trabalho virtual é trabalho em sua forma mais abstrata: o trabalho conceitual. Esse é o que vale mais, ainda que em muitas partes do mundo capitalista continuem presentes formas variadas de escravidão e outras formas arcaicas.

60.
Mas o trabalho conceitual, ou virtual, não é apenas aquele que um indivíduo elocubra sozinho. Ao contrário, é da natureza do trabalho conceitual o só fazer sentido inserido em redes, redes de informação que vão da mídia que forja a "opinião pública" ās novas oportunidades na Internet.

61.
O trabalho virtual é sobretudo trabalho interativo, ou seja, em rede. O erro de muita reengenharia é descuidar das formas como se procede à formação de redes dentro das empresas, entre as empresas e destas com os mercados e a sociedade.

62.
Como uma marca encontra seu valor? Estando suportada ou legitimada por uma comunidade de informação e linguagem que percebe esse valor da marca.

63.
Não basta ao produto ser fruto de produção de escala ou de artesanato: a marca acrescenta ās vezes valor artesanal ou "customizado" ās mais massificadas produções.

64.
À lei da oferta e da procura, portanto, e à lei de que o valor é apenas o resultado encoberto de uma relação de exploração, abre-se a alternativa de um mundo sem fronteiras onde o ciclo da informação torna-se o pressuposto maior da geração de valor.

65.
Do analista simbólico, cuja emergência é ressaltada por Robert Reich, à explosão de imagens associada à globalização da mídia, ressaltada por Alvin Toffler, passando pela crítica da Economia Política do Signo, de Jean Beaudrillard, pela Economia das Trocas Simbólicas de Pierre Bourdieu e pela desconstrução da Teleteoria, ou ainda pelas novas teorias econômicas da contratualidade e da cultura empresarial até as várias abordagens da nova ciência cognitiva ou da filosofia da linguagem, a constelação de perspectivas continua se multiplicando tomando o ciclo da informação e a formação de redes interativas como elementos centrais da "mecânica econômica" atual e, ao mesmo tempo, da "construção ou instituição imaginária do social."

66.
A reflexão sobre marcas ou padrões é, aliás, a marca registrada da moderna teoria econômica. A "política econômica" surge como questão e campo de reflexão a partir da experiência inglesa com o Padrão Ouro. (Esse é o meu tema na academia, onde defendi tese de doutoramento, em 1993, procurando precisamente essa aproximação entre as crises do mecanismo econômico e a problematização de "padrões" ou regras, na tentativa de alinhavar os pensamentos de John M. Keynes e Ludwig Wittgenstein).

67.
É da essência da taxa de juro, ao menos na explicação keynesiana dela, embutir um estado de confiança, uma avaliação de risco, um "spread over Treasuries" no jargão do mercado. A viabilidade de operações cruciais de comércio exterior depende da adequada transferência de riscos "soberanos".

68.
O arquétipo fundamental desse pós-capitalismo é o tempo sincrônico, a sincronicidade ou, no jargão tecnológico, é a época da obsessão pela formação de redes "on-line", em "tempo real".

69.
A formação de redes imita o processo arquitetônico do cérebro, são duas imagens assemelhadas e a inteligência artificial tem um ramo extenso que é justamente o do estudo das "redes neurais" que, então, têm sido extensamente aplicadas nos ramos da economia e das finanças.

70.
Do escritório de arquitetura em rede com o cliente aos grandes servidores interligando simultaneamente todas as praças financeiras do planeta, passando pela Internet, pelas redes de distribuição com Electronic Data Interchange (EDI), o próprio planeta está assumindo uma morfologia cerebral, com acúmulo crescente de informação e desafios cada vez mais complexos de interpretação e coordenação dessa massa informacional.

71.
Nisso reside o poder das marcas, das regras ou dos padrões que organizam e delimitam as possibilidades interpretativas, os cenários e as megatendências.

72.
O cérebro é um devorador de mitos e se projeta sendo devorado por eles. A definição de marcas assemelha-se muito à construção de tipos médios, captados pelas pesquisas de mercado ou identificados em sistemas informatizados de gerenciamento de pessoal, mas que passa também pela proliferação de tipos projetados, como o cowboy bilhonário do Marlboro ou o "intrapreneur".

73.
A economia torna-se de modo cada vez mais explícito uma engenharia cultural.

74.
Tudo são evidências de que convivemos com elementos quantitativos, cálculos financeiros, e qualitativos, que passam pelo estado de confiança da comunidade, confiança "ancorada" em marcas e padrões. As decisões de consumo, de investimento, eleitorais, estéticas ou financeiras são tomadas dentro de alternativas configuradas a partir de um certo código cultural. O código é feito de marcas e padrões. Mas a dinâmica do sistema é feita justamente da ruptura, nem sempre planejada, desses códigos.

75.
Divergências e convergências à parte, há no horizonte da economia contemporânea e dos teóricos que tentam captar suas transformações um campo comum: o campo onde se cruzam e fecundam a acumulação de valor e uma transformação social da linguagem e do conhecimento - uma fecundação mútua portanto entre economia e cultura ou economia e comunicação.

76.
Se valor é informação, acumularão mais aqueles capazes de introduzir maior carga informativa em seus produtos. É o "knowledge-based business". As fronteiras do mercado estão sendo permanentemente bombardeadas por reações cerebrais: o "brand rating" usual tem como "lead" a expressão "Top of Mind". Há uma correlação íntima, e assustadora, entre Mind e Market.

77.
A Internet, ao metamorfosear-se rapidamente num mercado virtual, é o exemplo mais acabado e disponível, em tempo real, dessa isomorfologia entre Market e Mind.

78.
Valor é informação: assim se poderia resumir a essência da dinâmica econômica contemporânea e, no seu interior, dimensionar o papel e o valor potencial de redes como a Internet.

79.
A Internet não pode ser tratada portanto apenas como um fenômeno paralelo ou marginal, aspecto secundário: trata-se de uma fronteira fundamental do desenvolvimento econômico global.

80.
Valeria ainda uma revisão do "campo simbólico" na sociologia do século 20, em especial para o papel central da religião nas obras fundadoras de Max Weber e Émile Durkheim.

81.
A reciclagem da informação, no campo filosófico, espraiou-se em muitas direções. Gostaria de terminar apontando apenas para uma das possíveis formas de identificar aqui também um campo onde se intervertem prática e teoria, matéria e conhecimento, tempo e espaço: dá-se que a distinção Habermasiana entre ação instrumental e ação comunicativa encontra uma síntese prática na construção mundial de um enorme sistema de comunicação.

82.
Habermas afinal aponta para as dimensões morais dessa construção, para a sua peculiar e ontologicamente fundamental "netiquette". O mídia é a mensagem (message) de uma "mass age". A rede é a sua forma de massagem, como já ironizou um outro herdeiro de MacLuhan.

83.
Na economia, na sociologia ou na filosofia prática atual, a "rede de informação" aparece como horizonte de uma perspectiva que se afirmou no século 20. Resta saber se ela vai realizar as esperanças daquelas disciplinas do pensamento, chegando a algo mais que uma MTV.

84.
Knoware - Nowhere - New Era.

85.
Knoware. Depois do hardware, do software e do humanware, knoware aponta diretamente para o repositório cultural e para as formas de reciclagem da herança cultural, assim como para a capacidade criativa de romper regras e redefinir padrões.

86.
"Knowledge ware": sistemas nacionais de inovação (conceito de política industrial), learning- organizations, knowledge-based business e todo o espectro de atividades gerenciadas pelos analistas simbólicos. Em especial, muito especialmente aliás, a indústria cultural. Com 300 milhões de espectadores, a MTV ainda é um fenômeno de rede de informação simbólica e economicamente mais relevante que a Internet - mas talvez não por muito mais tempo, ainda.

87.
Nowhere: a morfologia da rede é eminentemente plástica e flexível, das alianças estratégicas à formação de "blocos econômicos", passando pela Internet que a princípio não tem propriamente um "centro", sem desatentar do mundo econômico que se auto-proclama evidentemente "globalização", com o sub-texto que implica desterritorialização, deslocalização e multi-polarização indefinida.

88.
O Knoware é também um nowhere: em oposição ao mercado clássico, que tem no "centro de gravidade" do equilíbrio do sistema de preços a sua metáfora espacializante mais antiga e em oposição também aos cripto-messianismos implícitos nas várias profecias de emancipação pós-capitalista como "consumação" do progresso e da acumulação.

89.
A falta de um senso de direção espacializante tem também efeitos colaterais amargos: o tempo real do presente usa o futuro como símbolo, mas não assegura o futuro e vai simulando-o em tempo real.

90.
Essa temporalidade produz uma sincronia do assincrônico em que a felicidade histórica, a emancipação ou o progresso são quando muito um episódio de sincronicidade.

91.
O amargor de Paul Virilio vai ao ponto de assimilar os fenômenos de interatividade reticular a um "complexo militar-informacional" que sucede ao "complexo militar-industrial", apoiando-se na origem evidentemente militar da tecnologia que deu origem à Internet.

92.
Há de fato riscos em tudo isso, inclusive para o alerta de Virilio quanto a uma "Chernobyl informacional", mas esse parece também mais um caso de desespero e aversão à temporalidade presencial que o mundo reticular, do tempo real, em grande medida impõe.

93.
A refutação de Virilio exigiria uma revisão sociológica, para tirar da Internet ou da multimídia ou da realidade virtual a aparência cataclísmica e desorientadora que profetas como Virilio superestimam, para bem ou para mal. Isso porque o tecnologismo de que se reveste a economia das redes e a virtualização dos relacionamentos sócio-políticos não deve ser assumido a-crítica ou reducionisticamente.

94.
O tempo continua sendo uma elaboração de sujeitos que projetam sobre o mundo a busca de identidade. Que essa identidade seja feita e refeita em tempo real não lhe tira o caráter social e histórico.

95.
Por isso mesmo, ou seja, se se coloca a percepção histórica em primeiro plano, o Knoware parece realmente ser mais que uma simples moda ou "hype" subordinado à CIA ou ao mercado.

96.
Knoware: o poder da mídia redefine as fronteiras do mercado e da ação militar, que se torna de fato material e estrategicamente informacional. MTV e CNN.

97.
Avaliar o tipo de economia e sociedade que vem se conformando globalmente nas últimas décadas envolve portanto uma familiaridade com estruturas e processos bastante originais frente à tradição do pensamento social, econômico e cultural.

98.
O Knoware é assim possivelmnte também uma New Era, uma Nova Era.

99.
Em tempo real.


(*). O autor:
Doutor em Teoria Econômica (1993)
Economista e sociólogo (desde 1980)
Professor de economia da EAESP-FGV-SP, PUC-SP e IE-UNICAMP (desde 1983)
Editorialista e articulista da Folha de S.Paulo (desde 1984)
Economista-chefe do Banco de Boston (desde 1994)
Presidente do Conselho Consultivo da Sociedade Brasileira de Estudos sobre Japão e Pacífico (desde 1995) e sócio-fundador da Sociedad Latinoamericana de Historia de la Ciencia y la Tecnologia. Membro- fundador do Grupo Interdisciplinar de Redes e Inteligência Artificial. Consultor Editorial da Revista de Economia Política. Visiting-Research Fellow do Institute of Developing Economies, Tóquio (1988,1989,1990). Menção-honrosa no concurso nacional Sebrae de monografias sobre micro e pequenas empresas, com estudo sobre micro e pequenas no Brasil e no México. Vencedor do I Concurso Nacional de Monografias sobre Mercado de Capitais e Desenvolvimento Econômico (BVRJ/IBMEC, 1980). Autor dos livros "J.M. Keynes, um conservador autocrítico" (1984), "Japão de Olhos Abertos" (1990), "Decifre a Economia" (1993), "Lições da Economia Japonesa" (org.,1995) e "A Autocrítica do Capital - Keynes e Wittgenstein no mesmo campo" (no prelo).

Email: schwartz@turing.unicamp.br


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