Notas de um projeto sobre os jovens micreiros e os contextos em que são socializados como usuários das redes

Gerald S. Lombardi (*)


Vou descrever brevemente o projeto que estou realizando, e daí vou oferecer umas obervações sobre um dos contextos em que estou fazendo a pesquisa, que eu acho importante por causa do modelo cultural do uso das redes que ele representa.

Meu ponto inicial é o fato de que, como fenómeno cultural, as redes de comunicação pedem uma análise multidimensional. Todos nós na antropologia hoje em dia temos um compromisso de um certo jeito para fazer a antropologia da complexidade cultural, e as redes são um exemplo por excelência disso.

O coração do projeto é uma etnografia de uma população importante de usuários: os adolescentes. Este grupo entrou no mundo da informática no Brasil relativamente cedo, enfrentando números desafios práticos, legais e financeiros. Eles participaram da criação das proto-redes (os BBSs) independente dos esforços oficiais, e continuam sendo ativos nos BBSs enquanto dão os primeiros passos na direção da Internet. Assim, os adolescentes já têm uma história de produção cultural no ambiente das redes. Acho que os micreiros estão organizando essas atividades de um jeito que talvez vislumbre um tipo de posicionamento vis-à-vis as redes que vai ficar comum, ou pelo menos influente, no futuro. E é por isso que são uma das populações cruciais.

Ao mesmo tempo, as vidas deles não passam num vácuo social. Quero dar conta das forças institucionais e históricas em que esses usuários se encontram, e de onde provêm muitos dos recursos e possibilidades culturais que dispõem. Isto implica na análise, primeiro, da história política, económica e cultural da informática e das telecomunicações, e mais largamente da tecnologia em geral no Brasil. Isto porque não é somente o cronograma da implantação desta ou daquela tecnologia que importa, mas também o papel da tecnologia em si nas ideologias influentes de cada período, desde o positivismo nos primóridos da República até o desenvolvimentismo mais recentemente, e as ideologias que dominam o campo político- económico hoje-é uma herança forte que marca a sociedade em muitos respeitos. Em termos da atualidade, estou mapeando os interesses dos atores institucionais envolvidos com as redes: o governo, o setor empresarial, as universidades, as ONGs, etc. O foco do mapeamento so as normas sociais que cada ator pretende promover através de seu preferido modelo da implantação e do uso das redes. Quer dizer, o modelo de cada grupo revela as suas idéias sobre quem deve ter acesso ao que tipo de recursos sociais, e sobre quem deve controlar o quê no ámbito das redes: é isso que nos interessa.

Infelizmente, não tenho tempo para falar das orientações teóricas que fundamentam este projeto, mas posso dizer que se eu conseguir o objetivo de dar conta adequadamente desta situação complexa, o modelo que eu uso vai ser bastante útil em alguns debates que estão tramitando neste momento, pelo menos nos Estados Unidos, nas antropologias cultural e linguística, e em outras disciplinas que estão interessadas nas redes. Sentimos a necessidade de modelos culturais mais adequandos, que esclarecem as relações entre o dia-a-dia de produção cultural e o fluxo histórico em que isto acontece.

Agora, retornando ao tema desta mesa redonda, eu gostaria de fazer umas observações preliminares sobre um dos contextos em que estou trabalhando: as "escolas de informatização". Estou acompanhando as atividades em algumas escolas em São Paulo que são unidades franquiadas de uma empresa multinacional com escolas em mais do que 50 países. O interessante aquí é que os valores normativos e culturais desta empresa transparecem tão claramente em tudo que acontece em volta das aulas. E se quisermos entender "as culturas da Internet", temos que entender estes lugares que procuram socializar as pessoas para adotar um certo modelo de comportamento, e uma certa conciência, perante as redes.

Para se ter uma idéia do potencial das escolas como veículos de socialização, em São Paulo a empresa tem 35 franquias; cada uma dá aulas na sua própria sede e também tem direito de negociar a terceirização das aulas de informática em todas as escolas privadas no seu território. Com isso, a empresa está atuando em umas centenas de lugares só na cidade de São Paulo. E é bem espalhado pelo resto do país, e é somente uma entre várias empresas que oferecem este serviço.

No caso desta empresa, o que mais influencia o seu modelo normativo é que a matriz, no exterior, procura transformar sua globalidade enquanto empresa em uma identidade global entre os alunos. Consegue isso pela padronização e a sincronização temporal ded tudo que contribui à experiência que os alunos têm.

Primeiro, todos os alunos de todas as franquias são expostos ao mesmo material - em inglês - na mesma sequência, e com os professores usando os mesmos métodos. Visualmente, tudo - até os cores dos móveis - é igual ao o que se eoncontra nas demais escolas. As paredes das salas são decoradas com imagens tiradas dos mesmos softwares de desenhos, que são usados na empresa inteira. Ao lado das imagens, bandeiras - também em inglês ou numa mistura de inglês e português - exortam os alunos a se identificarem com o caráter planetário e futurístico das suas atividades, e com o fato de que são integrantes de uma "tribo", a palavra usada na propaganda da empresa. E devo dizer que o nome da companhia, que não posso revelar mas que se pode comprar estampado em todo tipo de roupa e adereço, é altamente significativo em termos da identidade que ela quer inculcar nas crianças e projetar ao público.

Acompanhei uma série de aulas de telecomunicações numa destas escolas. Elas são sincronizadas de tal jeito que, quando os alunos de unidade X de São Paulo entram no canal de chat de um BBS, encontram com certeza absoluta alunos de pelo menos uma outra unidade do país para ter uma conversa. Daqui a pouco, se as tarifas telefónicas permitirem, a mesma sincronização do chat acontecerá no nível internacional.

Quando estão online, eles aprendem o básico de netiqueta e os emotícones elementares, e são avisados que nunca devem revelar os seus nomes verdadeiros. (Que leva a momentos interessantes em que as turmas, divididas em grupos de dois, negociam o nome coletivo que vão adotar na ocasião.) A interação com os colegas das outras unidades é guiada pelo professor, e gira em volta de: "Vocês são de qual unidade da escola?" - "Somos de unidade X." "Voces gostam das aulas?" - "Sim, achamos as aulas demais." "Bom, temos que ir embora. Tchau." - "Até mais." Mas esta superficialidade é um efeito de cada turma ter uns 14 minutos online durante cada aula, isto sendo imposto por motivos financeiros. A ideologia oficial da empresa é plenamente construtivista (e vocês sabem tudo o que isso implica), mas a ideologia é fatalmente subordinada à realidade do relógio, para tudo terminar dentro do tempo previsto: as babás e/ou os choferes estão aguardando na sala de recepção.

Antes dos jovens sairem da sala, o professor põe um carimbo nos seus "passaportes". Isto é a única coisa que nunca falta: uma aula não foi uma aula sem o carimbo. O passaporte é um documento com fotografia e dados sobre o portador, que se preenche com carimbos indicando as aulas já completadas. Com isso, o aluno pode entrar temporariamente em qualquer unidade do mundo inteiro, e a administração vai aceitá-lo como cidadão da tribo (as palavras deles), e vai saber em qual aula ele pode participar.

Fora da escola, a franquia-mestre aqui no Brasil coordena a redação de uma revista de informática para "Kids", que sempre destaca assuntos diretamente ligados com o conteúdo das aulas em andamento. E recomenda os hardwares e softwares que se deve ter para melhor tirar proveito das aulas, numa coluna que se chama, "Eu Compro, Tu Compras, Ele Paga".

Isso em resumo é a atmosfera desta escola, embora a realidade seja mais rica do que posso descrever aquí. Minha pergunta é: que tipo de socialização acontece lá? Os jovens estão aprendendo o quê? Inevitavelmente, aprendem mais do que consta do currículo, que é uma pequena parte da experiência. Já sugeri que a padronização e a sincronização são fatores importantes. A ideologia globalista, digamos, é uma coisa esmagadora, é onipresente. E os padrões de comportamento online, embora não muito elaborados, me fazem chutar que estou presenciando o aprendizado de uma espécie de lingua-franca por escrito. Só o suficiente de vocábulos ingleses para se entrar na rede, usando o software americano, sem gafes técnicos, e só o suficiente de regras de interação - que são a sintaxe da vida online - para se dar bem com os outros superficialmente. Uma receita para um bem-comportado cidadão do Século XXI.

Mas no meio de tudo isso, eu não mencionei a atitude dos alunos, que é absolutamente blasé. Cara de pau, quase o tempo todo. Eu tenho que questionar quem está satisfazendo os seus interesses com esta experiência. Os jovens em geral entram no mundo do computador e das redes por vários caminhos, e se educam nos intricados desse mundo de diversas maneiras. A maioria dos que estão profundamente envolvidos é auto-didata e tem grupos informais marcado por um aprendizado mútuo. Por outro lado, a população atingida pelas escolas de informatização é frequentemente colocada lá por seus pais. Desconfio que a forma da experiência, o apelo ao globalismo, a padronização e todo o resto, tenha tanto a ver com os interesses dos pais, com o que os pais estão imaginando por seus filhos, quanto tem a ver com os interesses dos próprios filhos. É uma intuição que tem que ser verificada empiricamente, me se é verdade, o caráter destas escolas é um espelho em que podemos ler as ansiedades, as aspirações, e a visão-ou medo-do futuro de uma geração de pais da classe média urbana.

Há mais uma coisa. Existe uma ligeira tensão entre a matriz estrangeira e os diretores dos franquiados aquí. Acontece que, entre os 50 países onde este empreendimento funciona, os brasileiros estão liderando um movimento para nacionalizar os softwares e adaptar os métodos à realidade de cada lugar, que abre uma série de questões sobre o leque de interesses locais, nacionais e internacionais que neste contexo se interagem de uma maneira não-predeterminada. Mas, já que usei todo o meu tempo, vou deixar isso para a próxima conversa.

Agora gostaria de mencionar uma das questões práticas que surgiram, porque destaca um dilema metodológico e ético que enfrentamos neste campo de pesquisa meio desconhecido.

É o seguinte: o que fazer com a quantidade de informação que passa nas redes? Eu poderia passar todo o meu tempo coletando, categorizando e analizando o que chega pra mim pelos fios telefónicos conectados ao meu modem. Isto é um problema que afeta o mundo inteiro agora, graças à informática: como garimpar a informação e achar o ouro no meio da lama. Mas além do simples problema de quantidade, tem um outro aspecto para nós que estamos ligados uma tradição que valoriza o contato íntimo com as pessoas que queremos conhecer: o que será um papel apropriado para os dados coletados por esses meios mais mediados, mais afastados do que estamos acustumados?

Por exemplo, um colega da USP está criando um MOO para alunos dos colégios conveniados da Escola do Futuro, e este MOO vai ser um espaço de muitas possibilidades para interação e comunicação - um mundo social imaginário. Fui convidado a virar um cidadão do MOO e em breve vou ter que escolher a minha identidade lá. Isso traz questões éticas. Devo adotar o personagem de um antropólogo e fazer antropologia imaginária? Meu colega diz que não - que isso vai atrapalhar as relações com os alunos. Uma das minhas professoras de antropologia diz que sim, tem que assumir, mas que não devo revelar o meu papel imediatamente. O código de ética da minha profissão diz que não se pode dissimular para coletar dados. Claro, isso trata de relações "reais" com pessoas "reais" e não de personagens num espaço imaginário. Mas somos pessoas reais atrás desses personagens que inventarmos no nosso MOO. Acho que realmente há uma questão metodológica aí, que mostra que as normas da antropologia estão um pouco desatualizadas ou fora de sintonia com este campo social.

Outro exemplo. Em julho comecei a visitar os canais de chat e a conferência de hackers de um BBS em São Paulo. Acumulei uma quantia de material dessas visitas, uma parte dela provávelmente útil, e não sei se posso observar a regra etnográfica de não usar ou citar as palavras das pessoas sem o consentimento delas. Será que posso analisar e publicar as mensagens à vontade, sem pedir licença para ninguem? O caráter dos BBSs em termos da divisão entre público e privado não está clara. Além disso, há tanta invenção de apelidos e identidades temporárias nos BBSs, que nem sei a quem devo a procurar consentimento, ou como. Mas quero deixar espaço para as pessoas controlarem a sua própria representação na minha tese e em eventuais publicações. Enquanto pesquisador acadêmico, estou vivendo o mesmo dilema que todo mundo enfrenta nas redes: a desconexão entre a informação e as suas fontes cria situações inéditas e não temos orientação definitiva. Sem cair na armadilha de virar os nossos próprios informantes, acho que podemos usar esses momentos de ambiguidade para aprofundar a nossa apreciação da complexidade do campo em que estamos trabalhando.


(*). O autor:
Doutorando em Antropologia Social na New York University; pesquisando no Brasil a convite da RNP.
Email: jerry@cr-sp.rnp.br


retorna ao índice dos anais