A Internet na UFRGS: Transformações e Perspectivas

Joel Martins Grigolo Junior (*)


A implementação das novas tecnologias de comunicação e informatização, como no caso da Internet, corre o risco de se resumir a uma justificativa técnico-operacional. Compreende-se, habitualmente, essa "implementação" como uma substituição de processos mecânicos-repetitivos, ou simplesmente usuais, das tarefas anteriormente exercidas, por seu similar eletrônico, ou seja, o que era produzido com esforço físico se transforma em rotinas programáveis em um "cérebro eletrônico", o resultado esperado é um aumento significativo da eficiência quantitativa e qualitativa dos processos.

Tais afirmações são utilizadas comumente em diversos setores da sociedade contemporânea, econômico- financeiros, administrativos, educacionais, etc. Porém essa é uma visão limitada, para não dizer equivocada das possibilidades dos novos sistemas.

Conforme pesquisas feitas nos Estados Unidos da América e também em países europeus os resultados do "modismo" de informatização levado a cabo durante os anos 80, revelaram-se em muitos casos pífios, com ganhos de produtividade girando em torno de menos de 1% anualmente. Diversas pesquisas realizadas junto ās empresas apontam para índices alarmantes de ociosidade dos equipamentos.

A implementação dessas mesmas tecnologias em instituições de ensino e pesquisa, não se diferenciou do restante das outras iniciativas. Em muitos casos, como escreveu Armando Barros de Castro em seu texto para a Revista São Paulo em Perspectiva: Impactos das Novas Tecnologias da Informação, ocorre a "modernização de fachada", ou seja é um recurso caro, inovador e potencialmente revolucionário. Mas, implantado apenas observando seu viés técnico se mostra infrutífero e decepcionante.

Se compararmos a Universidade, enquanto instituição de pesquisa, produtora de conhecimento como uma unidade fabril, poderíamos visualizar a "informação" como a matéria prima imprescindível, sobre a qual se edifica todo o aparato da produção acadêmica.

Nesse sentido, o computador é uma importante ferramenta, auxiliando tanto quantitativa como qualitativamente as ações de processamento das informações.

Com o advento das novas tecnologias, que culminaram na Internet, o computador assume uma nova função, deixa de ser apenas um processador de informações, para tornar-se em mais uma alternativa para pesquisa e coleta de dados. Entre outras coisas a informática permite:

Um exemplo que pode ilustrar o que foi exposto até aqui é o caso da UFRGS.

Esta Universidade iniciou a implantação da Internet em 1989, ano no qual oferecia ao seu corpo docente um canal de comunicação com o exterior através da FAPESP em São Paulo e posteriormente no final de 1990 e início de 1991 com o advento da Rede Nacional de Pesquisa e a aquisição do computador "Vortex" transformou-se em "site" pleno oferecendo todos o serviços disponíveis via rede e principal nó da chamada rede TCHÊ, que congrega as instituições de ensino superior e pesquisa do Rio Grande do Sul.

Contrariando os padrões atuais a UFRGS centraliza no VORTEX as contas de correio eletrônico e os serviços de acesso a informações. Cabe salientar que o Dowsizing, -substituição de equipamentos de grande porte por um processo de descentralização através da difusão de computadores menores- não é implementado tanto pela falta de verbas como por um erro inicial de avaliação. Tal situação torna a utilização da rede num homérico exercício de paciência, bem como num desperdício de verbas públicas.

Assim, os resultados obtidos ainda não compensam os esforços para sua implementação. Embora apresente alguns avanços importantes para o ensino e a produção científica os mesmos são esparsos e rarefeitos.

Para ilustrar esses problemas realizamos um levantamento junto ao Departamento de Ciências Sociais uma das unidades mais representativas da produção acadêmica na área das Ciências Humanas.

No levantamento de dados feito para este trabalho foram entrevistados 50% dos professores do Departamento de Ciências Sociais: 6 professores do Departamento de Antropologia, 10 professores do Departamento de Política e 16 professores do Departamento de Sociologia. Destes entrevistados, 15 (50%) utilizam a Internet mas, essa utilização não significa conhecimento dos serviços disponíveis via rede.

O desconhecimento das potencialidades da Internet por parte dos professores, ou mesmo a sua não utilização são justificáveis com certa facilidade por parte dos mesmos com a alegação do subdimensionamento dos equipamentos adquiridos para o acesso.

Dentre os professores que utilizam a rede, 10 acessam para buscarem dados para suas pesquisas, sendo estes dados em sua maioria procedentes do IBASE e também através da aquisição de livros no exterior. Apenas 3 afirmaram utilizar textos e dados disponíveis para consulta na rede, na sala-de-aula.

Na UFRGS a implantação da Internet restringiu-se em sua maior parte a uma substituição de métodos tradicionais da vida acadêmica, passou-se a utilizar o correio eletrônico ao invés do "fax", a automação das bibliotecas através de um serviço de catalogação centralizado, bem como a substituição de folders explicativos via correio sobre a universidade pelo Gopher e WWW. Nada que já não fosse feito ou que não pudesse ser feito por serviços já consagrados, confirmando a avaliação geral feita por David Harvey em março deste ano quando da sua estada em Porto Alegre.

A agilização da comunicação só poderá ter todo seu potencial utilizado, se as instituições se reestruturarem através do desenvolvimento de formas de intercâmbio e cooperação inter-institucionais assim como a construção de uma nova relação entre os pesquisadores/instituição. Por exemplo, com a descentralização da informação o pesquisador já não depende apenas da utilização dos serviços prestados pela biblioteca da instituição na procura de dados. A informação que irá fornecer a outros pesquisadores e instituições cada vez menos dependerá de processos burocráticos-institucionais. Grupos de discussão sobre temas variados disponíveis na rede podem vir a substituir gradativamente a necessidade de contato direto com outros pesquisadores para exposição de resultados de pesquisas, depoimentos e dados, ou seja para o pesquisador se atualizar já não se torna mais obrigatório o contato físico com outros pesquisadores.

O próprio espaço-tempo da vida acadêmica pode vir a ser transformado. No primeiro semestre deste ano foi lecionada a primeira cadeira regular de um curso da UFRGS (Psicologia) através da Internet, que limitou à um mínimo necessário o tradicional contato entre professor-aluno, num espaço dado, a sala de aula.

Mais do que uma solução técnica o pensar a instalação de máquinas-servidores tendo em vista as menores células de uma Universidade é a garantia de uma adaptação e um dimensionamento adequados para as tarefas e objetivos específicos conforme a necessidade dessa célula. Maior autonomia para os departamentos e mesmo usuários será mais do que uma necessidade um condicionante para um bom aproveitamento do investimento feito.

A utilização da Internet deve envolver também uma reestruturação organizacional- administrativa, bem como institucionais para desenvolver todo o seu potencial inato.

Programas de pesquisa inter-disciplinares e inter-institucionais são o melhor exemplo da exploração dos potenciais oferecidos pela Internet. Programas que repensem o ambiente de trabalho, as formas de interação e "solidariedade" entre instituições e até mesmo a diferenciação das fontes, já que as ONGs também começam a despontar como fontes de dados viáveis para pesquisas.

O repensar o "Universo Acadêmico" torna-se imprescindível neste momento. Pensar a implantação da Internet como um processo descentralizado requer repensar a hierarquia institucional bem como uma realocação do espaço-tempo acadêmico.


(*). O autor:
Estudante de Graduação em Ciências Sociais (UFRGS), bolsista CNPq.
Email: joel@bscsh.ufrgs.br


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