Implicações espaciais das novas redes de telecomunicações: as teses e seus limites

Leila Christina Dias (*)


Desde a década de setenta, as inovações técnicas deram lugar a uma vasta literatura sobre o papel das redes na organização territorial. É importante ressaltar que esta temática está inscrita num debate mais amplo sobre a técnica e sua capacidade virtual de criar condições sociais inéditas, de modificar a ordem econômica mundial e de transformar os territórios. Na tentativa de responder à estas interrogações em toda a sua complexidade, muitos trabalhos resultaram em discursos freqüentemente prospectivos, em especulações, sobre os pretensos efeitos da inovação — segundo o pressuposto de uma causalidade linear entre o desenvolvimento técnico e as transformações espaciais, sociais ou econômicas. É neste contexto que se difundiu, em larga escala, a retórica do "impacto", do "efeito" das redes técnicas na organização do território.

É consenso o fato de que estamos, hoje, frente à um fenômeno de espetacular redução das barreiras espaciais, denominado por D. HARVEY (1989) de uma nova rodada na compressão tempo-espaço. Nova, sugere o autor, porque outras rodadas já tiveram lugar em outros momentos da história. As novas redes de telecomunicações — como no passado o telégrafo e o telefone — constituiriam, assim, a resposta contemporânea à necessidade de acelerar a velocidade de circulação dos dados e do saber.

O encontro entre informática e telecomunicações encontra-se no centro de debates pluridisciplinares que deram lugar à difusão de algumas teses que giram em torno de sua capacidade virtual de anular o espaço e de transformar o território (VIRILIO, 1977; BRESSAND e DISTLER, 1985). Na contramão desta tendência, outros autores mostram como um certo 'delírio analítico' impregnou a reflexão sobre as incidências das redes sobre o espaço (CURIEN e GENSOLLEN, 1985; HARVEY,1989; BEGAG, CLAISSE e MOREAU, 1990; DIAS, 1991).

Em primeiro lugar, consideramos importante contestar a tese de que "a contração das distancias se tornou uma realidade estratégica de conseqüências econômicas incalculáveis pois ela corresponde a negação do espaço...a localização geográfica parece ter definitivamente perdido seu valor estratégico..." (VIRILIO, 1977:131 e 133). É claro que a aceleração dos ritmos econômicos pela eliminação do ‘tempo morto’, graças ās novas técnicas de informação, diminui as barreiras espaciais. Contudo, associar contração das distancias à negação do espaço revela uma perspectiva analítica reducionista uma redução do espaço à noção de distancia. A análise do caso brasileiro vai de encontro à esta visão de um espaço indiferenciado, reduzido à única noção de distancia. Observamos um espaço que se ordena em função de uma nova diferenciação que poderíamos caracterizar como a diferença entre o virtual e o real — a integração de todos os pontos do território pelas novas redes de telecomunicações, sem consideração de distancia, só se materializa em função de decisões e de estratégias. Ao contrário da visão ‘Viriliana’, a localização geográfica torna-se portadora de um valor estratégico ainda mais seletivo. As vantagens locacionais são fortalecidas e os lugares passam a ser cada vez mais diferenciados pelo seu conteúdo — recursos naturais, mão-de-obra, redes de transporte, energia ou telecomunicações.

Uma segunda redução analítica, presente nos debates, é relativa ao tempo. "Desde o momento em que se reduz o tempo a noção de tempo real, os efeitos das novas tecnologias sobre o espaço serão instantâneos, e essas tecnologias se desenvolverão num espaço cuja história (o tempo passado) e a organização atual (o tempo presente) serão escotomizados " (BEGAG, CLAISSE e MOREAU, 1990:190). Neste sentido, as redes não vêm arrancar territórios ‘virgens’ de sua letargia, mas se instalam sobre uma realidade complexa que elas vão certamente transformar, mas onde elas vão igualmente receber a marca. A introdução da teleinformática põe em movimento todo um jogo de interações a partir do qual não é fácil prever as conseqüências. A comunicação através das novas redes de parceiros econômicos — à montante e à jusante — se acompanha de uma seletividade espacial. Integrando os agentes mais importantes, as redes integram desigualmente os territórios, seguindo o peso das atividades econômicas preexistentes. No lugar de abrir os ferrolhos, ela pode favorecer a rigidez e o peso de antigas solidariedades.

As teses aqui discutidas apontam para um conjunto de interrogações que formam, na atualidade, um campo pluridisciplinar de pesquisa, no qual pesquisadores de horizontes disciplinares diversos buscam apreender o significado das redes; não numa perspectiva de linearidade entre o desenvolvimento técnico e as transformações espaciais, sociais ou econômicas, mas sim numa realidade pluridimensional, na qual emerjam as estratégicas antagônicas de uma multiplicidade de atores. Neste sentido, a história das redes de telecomunicações é, sem dúvida, um processo complexo, no qual coexistem eventos determinados por interações locais e projetos definidos por concepções globais sobre o papel das técnicas de informação e de comunicação.


Referências bibliográficas:

BEGAG, A., CLAISSE, G. e MOREAU, P.
L'espace des bits: utopies et réalités. In: Bakis, H. (ed.). Communication et territoires. Paris, La Documentation Française, 1990. p. 187-217.

BRESSAND, A. e DISTLER, C.
Le prochain monde — réseaupolis. Paris, Seuil, 1985. 318 p.

CURIEN, N. e GENSOLLEN, M.
Réseaux de télécommunications et aménagement de l'espace. Révue Géographique de l'Est, n 1: 47-56, 1985.

DIAS, L. C.
Les réseaux de télécommunication et l'organisation territoriale et urbaine au Brésil. Paris, Tese de Doutorado, Université Paris IV, 1991. 304p.

HARVEY, D.
The condition of postmodernity. Oxford, Basil Blackwell, 1989. 378p.

VIRILIO, P.
Vitesse et politique. Paris, Galilée, 1977. 151 p.

(*). A autora:
Profa. do Depto. de Geociências da Universidade Federal de Santa Catarina.
Pesquisadora do CNPQ.
Email: leila@cfh.ufsc.br


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