A educação e as redes planetárias de comunicação

Nelson Pretto (*)


Resumo

Às vésperas de um novo milênio, a humanidade vive um momento histórico especial, com uma presença generalizada dos meios eletrônicos de comunicação e informação. Novos valores estão surgindo, colocando a modernidade em sua limite histórico. Uma nova razão começa a ser gestada, baseada em um outro logos, não mais operativo, mas que tem na globalidade e na integridade seus vetores mais fundamentais.

As novas redes planetária de comunicação crescem de forma quase que alucinante e, com isso, coloca-se em cheque todos os valores de um sistema educacional ainda calcado em velhos paradigmas.

Este texto discute estas questões e, principalmente, analisa a necessidade de profundas transformações no nosso sistema educacional, visando a construção de uma educação e uma escola preparada para o novo milênio que se aproxima.


Alucinação de informações

O mundo contemporâneo, às vésperas de entrar no novo milênio, sofre transformações estruturais significativas. O processo histórico do desenvolvimento da ciência e da tecnologia universalizou o homem moderno, criando condições objetivas para que ele seja, ao mesmo tempo, universal e tribal (não-local e local). Segundo o filósofo italiano Gianni Vattimo, "vivemos o mundo da comunicação generalizada, da sociedade do mass media, com uma multiplicação de valores locais". Com isto, perde sentido a existência de uma história unitária, com um sentido privilegiado. Ainda de acordo com Vattimo, o fim da concepção unitária de História, da história com um sentido privilegiado, esta ligado a impossibilidade de se ver o passado com um único conjunto de imagens. Para ele "existem imagens do passado propostas de pontos de vistas diversos" e "é ilusório pensar que exista um ponto de vista supremo, globalizante, capaz de unificar todos os outros (como seria A História, que engloba a História da Arte, da Literatura, da Guerra, da sexualidade etc.). [1]

Para ele, esta concepção unitária de história induzia, como conseqüência, a idéia de progresso. Idéia de que o futuro nos chega sempre como um processo evolutivo linear, como uma melhora daquilo que foi o passado. Com a presença generalizada dos meios de comunicação e a conseqüente possibilidade de uma multiplicação de valores locais, multiplicam-se as possibilidades de se contar histórias e, com isso, esvazia-se de sentido esta concepção de progresso.

Começa a surgir uma nova percepção espacial que modifica, também, o conceito de Geografia, agora não mais baseada apenas no espaço mas sim, vinculada ao espaço-tempo. Como diz Paul Virilio, "a geografia do dia da velocidade e não mais a geográfica do dia meteorológico." Para ele, já agora, "quando você volta a Paris de Los Angeles ou de Nova Iorque, em certas épocas você pode ver, através da janela, passando sobre o pólo, o sol poente e o sol nascente. Você tem o amanhecer e o anoitecer numa única janela. Estas imagens estereoscópicas mostram bem o além da cidade geográfica e o advento da concentração humana no tempo da viagem. Esta cidade do além, é a Cidade do Tempo Morto". [2]

Estas transformações aceleradas estão intrinsecamente vinculadas a este mundo de comunicação generalizada. Mas, o que, efetivamente, significa esse mundo, com esta presença marcante dos meios eletrônicos de comunicação? Para Vattimo, isto significa a emancipação. Uma emancipação que tem a ver com a possibilidade de desenraizamento, com a possibilidade de libertação das diferenças e de multiplicidade de racionalidades 'locais'.

Com isso, vive-se a possibilidade de uma convivência (muitas vezes não pacífica!) entre culturas diferentes, localizadas em lugares distantes. Um novo lugar, agora não mais físico, não mais geográfico, assume o papel de lugar público. Este novo lugar é a tela da televisão e/ou o espaço virtual das redes telemáticas de computadores. Para Virílio, é a "imagem televisiva do jornal das oito (que) está se transformando num espaço público. (Antes), o espaço público era a praça, era a esquina onde os homens se encontravam para dialogar, para se manifestar publicamente, para lutar ou para festejar. Hoje em dia, é visível que o cruzamento, o espaço em que os homens se encontram é o jornal das oito. Alguns anos atrás, em Paris, os atentados terroristas eram programados de modo a serem noticiados no jornal das oito. Vê-se também nesse caso, efetivamente, que há uma ruptura, a arquitetura antiga construía espaços públicos, praças, jardins, parques e vias de acesso, avenidas etc. Hoje em dia, é a imagem que se torna pública. No caso da televisão, há unidade de tempo, no jornal das oito, mas não há unidade de lugar. Estamos pois, juntos diante de uma imagem pública, que substitui a praça pública, mas separados, cada qual em sua casa." [3]

Estas transformações vivenciadas pela humanidade neste final de milênio estão intimamente vinculadas, como já dito, com o desenvolvimento das novas tecnologias da comunicação e informação que, mais recentemente, ganham incremento a partir do movimento de aproximação entre as diversas indústrias (de equipamentos, eletrônica, informática, telefone, cabos, satélites, entretenimento e comunicação). Este movimento, que é a condição objetiva para o aperfeiçoamento destas tecnologias, faz com que, potencialmente, aumentem as possibilidades de comunicação entre as pessoas. No entanto, como em todo momento de transição, ainda convivem, neste mesmo tempo, valores deste mundo em transformação com os valores antigos, vinculados aos velhos paradigmas da sociedade moderna. A concentração do capital na esfera do sistema mundial de comunicações é um destes elementos da modernidade presente no momento atual. Esta concentração, que se dá em direção à constituição de impérios de comunicação, gera uma centralização na produção das imagens, das notícias e da informação. Para o jornalista Washington Novaes, no Brasil, na verdade, temos mais que a propriedade dos meios, temos a propriedade da informação [4]. Em função disso, a democratização da comunicação, objetivo perseguido por todos os povos desde a Revolução Francesa, é ainda algo a ser conquistado por muitos.

Um outra esfera que resiste bravamente a estas transformações é o sistema educacional. O advento das novas tecnologias de comunicação e informação, com especial ênfase na informatização da sociedade e da possibilidade de uma comunicação mais ágil e interativa, como a promovida pelas redes como a Internet, coloca os sistemas educacionais, e a escola em particular, numa encruzilhada.

Países como o Brasil, com tantos problemas sociais a serem enfrentados, depara-se com este novo desafio: construir uma escola que forme o jovem profissional que viverá um novo milênio, impregnado de comunicação.

Educar para o novo milênio

A possibilidade de um uso menos custoso das infra estruturas de comunicação à serviço da educação, constitui-se na condição básica para viabilizar um novo projeto educativo para o país. No entanto, esta condição não é suficiente. É necessária mas não suficiente. Precisamos ter mais claro qual o projeto educacional que sustentará teórica e filosoficamente este maior uso dos novos recursos tecnológicos da comunicação e informação na educação.

Um novo campo se amplia, induzindo os educadores a pensarem neste novo papel para a educação, em particular para a escola. Isto porque, não basta simplesmente colocar os velhos conteúdos e as velhas formas de ensinar, nos novos meios de transmissão de informações para termos a garantia de estarmos promovendo transformações no sistema educacional. Ao contrário, muito provavelmente, assim fazendo, estaremos deixando, agora talvez até com mais força, a educação encurralada, sem possibilidade de se superar.

Viver neste mundo de comunicação generalizada, é viver num mundo com novos valores, que começam a surgir ainda sem contornos bem definidos.

Talvez seja exatamente o fato destes contornos ainda não estarem bem definidos que induza aos educadores a, muitas vezes, encontrarem-se diante da necessidade de resistir a estes novos valores que estão em gestação. Como os novos recursos da comunicação são, de certa forma, portadores eles mesmos das principais características desta nova sociedade que se esta construindo, muitas vezes, os educadores encontram, nestes meios, seu alvo principal para poder resistir às mudanças que estão sendo impulsionadas.

Os jovens, que já vivem plenamente este mundo alucinado, uma vez que convivem mais intimamente com computadores, televisão, videogames, terminam trazendo para a escola este mundo impregnado de imaginação, emoção, raciocínios rápidos e velozes, introduzindo, portanto, estes nos novos elementos, mais presentes e mais determinantes do seu universo cultural.

A escola, no entanto, ainda resiste a estas transformações desconhecendo o universo dos jovens que a ela chegam. Estabelece-se, entao, um verdadeiro confronto.

As dificuldades de uma compreensão mais integral do significado deste momento histórico atinge, evidentemente, a sociedade como um todo e a escola em particular. O que se busca é considerá-la como parte integrante deste movimento mais global de transformações e, para tal, uma nova postura torna-se necessária. Muitos problemas precisam ser enfrentados para uma empreitada deste porte. Incorporar a imaginação, a afetividade, uma nova razão, não mais operativa e sim baseada na integridade e na globalidade, encontra inúmeras resistências. Para Pierre Babin, "é difícil admitir que o imaginário e a afetividade possam, de alguma forma, influenciar a escola, a empresa ou a organização social. Na mente dos homens que detêm o poder cultural, qualquer expressão imaginária ou afetiva está ligada ao prazer, à arte, à manipulação." [5]

É difícil, portanto, imaginar que esta articulação entre o mundo da comunicação e o mundo escolar se dê de forma fluida e transparente. No entanto, a escola — e a educação como um todo — não pode permanecer apenas contemplando o movimento de transformação que está ocorrendo na sociedade como um todo. Ela própria precisa ser repensada e integrar-se neste conjunto de transformações.

E, para acompanhar e ser participe deste novo mundo em construção, precisam acontecer e serem gestadas no processo de vivência deste momento, transformações estruturais significativas na escola, buscando formar um novo ser humano preparado para viver plenamente o milênio que se avizinha. Não podemos continuar formando aquele ser humano-mercadoria, mão-de-obra barata para uma sociedade tecnológica. Precisamos passar a formar o ser humano-programador da produção, capaz de interagir com os mecanismos maquínicos da comunicação, um ser humano participativo que saiba dialogar com os novos valores tecnológicos e não um ser humano receptor, passivo.

Este novo ser humano precisa, portanto, estar capacitado para estabelecer uma fundamental relação entre o homem e a máquina, porque, como diz Renè Berger, esta "relação (...) não se reduz mais ao nível de instrumentalidade." [6]

Neste contexto, a escola pode — e deve — ter uma outra função, um outro papel. Não se trata de garantir, apenas, a universalização do seu acesso. É básico que ela assuma a função de universalizar o conhecimento e a informação. Nesta perspectiva, as novas tecnologias da comunicação passam a desempenhar um papel vital neste processo. Mas, também este relacionamento entre a educação e a comunicação precisa se estabelecer num outro patamar.

Não se pode continuar a pensar que incorporar os novos recursos da comunicação na educação seja uma garantia, pura e simples, de que se está fazendo uma nova educação, uma nova escola, para o futuro. Ao contrário, observamos que esta incorporação vem ocorrendo, basicamente, numa perspectiva instrumental, com uma pura e simples introdução de novos elementos — ditos mais modernos — em velhas práticas educativas [7]. O que precisamos é de uma integração mais efetiva entre a educação e a comunicação e isso só se dará se estes novos meios estiverem presentes nas práticas educacionais como fundamento desta nova educação. Aí sim, estes novos valores, ainda em construção, serão presentes e integrantes desta nova escola, agora com futuro. Assim, esta escola estaria presente e seria participante da construção desta nova sociedade e não permaneceria, ou como uma resistência a estes valores em declínio ou, talvez o pior, como mera espectadora a-crítica dos novos valores em ascensão.

Esta nova escola não está definida. Nem será definida de fora, a partir de um modelo preestabelecido. Alvin Toffer, estudioso americano sobre o futuro da humanidade, autor do livro A Terceira Onda, em entrevista ao jornal italiano Il Manifesto, afirmava que "todos querem saber se (o futuro) será positivo ou negativo. Mas a resposta é simplesmente que será diverso. Não é possível analisá-lo com os critérios ou os valores que temos hoje." [8]. Também para a escola podemos usar este raciocínio. Sabemos — e queremos — uma nova escola mas, também ela, está em construção. O que sabemos e o que queremos é que ela tenha uma correspondência com a realidade imagética e de comunicação do mundo que a cerca. Que ela possa estabelecer com este mundo uma relação crítica permanente. Enfim, que ela consiga perceber e incorporar no seu cotidiano, estas novas tecnologias, estruturantes elas mesmas, de um novo pensar. De um novo viver.


Salvador, BA — agosto de 1995.


Notas:

*. O autor:
Professor da Faculdade de Educação/Curso de Pós-Graduação em Educação — Universidade Federal da Bahia.
Coordenador da Rede Bahia.
Licenciado em Física, Mestre em Educação e Doutor em Comunicação.
Fone: 071 245 0899/247 1822 Fax: 071 247 9907
Email: pretto@ufba.br
  1. Vattimo, Gianni, A Sociedade Transparante, Lisboa; Edições 70, p. 11.
  2. Virilio, Paul, Guerra Pura, São Paulo: Brasiliense, 1984, p.17
  3. Virilio, Paul, in América: depoimentos João Moreira Salles e Nelson Brissac Peixoto, São Paulo; Cia das Letras; Rio de Janeiro: Videofilmes, 1989, p. 134 — grifo meu.
  4. Novaes, Washington, “Telejornalismo II — ética e informação” in Macedo, Cláudia, TV AO VIVO, São Paulo: Brasiliense, 1988, p. 95
  5. BABIN, Pierre e Kouloumdjian, Marie-France. Os Novos Modos de Compreender — a geração do audiovisual e do computador, São Paulo: Paulinas, 1989, p. 106/7.
  6. Berger, René, Il nuovo Golem — televisione e media, tra simulacri e simulazione, Milão: Raffaello Cortina Editore, p.49/50.
  7. Pretto, Nelson De Luca, A Universidade e o Mundo da Comunicação — análise das práticas audiovisuais das Universidades brasileiras, São Paulo: ECA, tese de doutoramente, 1994.
  8. Il Manifesto, 19/2/94, p. 11.


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