Potencialidades do uso das redes na organização da sociedade civil:
a experiência das entidades filiadas ao AlterNex

Sonia Aguiar Lopes (*)


No quadro de múltiplas relações entre o poder de Estado, o poder econômico e a sociedade civil estão sempre em jogo a manutenção do status quo pelos setores dominantes e a luta por uma nova hegemonia por parte dos setores dominados ou subalternos. Este modelo pressupõe a existência de um fluxo dominante de circulação de informações sintonizado com os poderes político e econômico hegemônicos, em relação ao qual operam-se contra-fluxos, desvios, interceptações, exclusões etc, de acordo com as situações de trocas culturais, o jogo de intenções e as circunstâncias da comunicação.

Em meados da década de 70, governos "não-alinhados" à guerra fria, representantes de países do "terceiro mundo" e organizações "não-governamentais" dos mais diversos matizes começaram a discutir a relação entre as desigualdades existentes na distribuição dos bens materiais e as desigualdades de acesso aos bens simbólicos. Sob a égide da Unesco, foi então formulada a hoje velha "Nova ordem mundial da informação e da comunicação" (Nomic), resultante de um longo processo de crítica à hegemonia informativa do chamado mundo desenvolvido, cujos sistemas de superinformação geram, simultaneamente, subinformação ao excluir a grande parcela da população mundial culturalmente, tecnologicamente e financeiramente não habilitada para acessá-los.

Durante dez anos, o debate em torno dessa "nova ordem" envolveu pelo menos 42 países, que sediaram e/ou organizaram cerca de 50 encontros de nível intergovernamental, além dos 44 eventos promovidos por organizações não-governamentais e associações profissionais, nos quais foram propostas inúmeras formas de se combater os fluxos assimétricos de informação, na busca de um intercâmbio horizontal, em que se desse ênfase aos links de informação (redes), à democratização do acesso aos sistemas de informação e de comunicação, à liberdade de pensamento e de expressão.

O enfrentamento dos então emergentes sistemas de comunicação transnacional, o desenvolvimento de uma cultura informativa nos países "não-desenvolvidos" e a formação de competências (expertise) comunicativas com propostas alternativas à mídia tradicional faziam parte das estratégias de "contra-informação", na expressão conceitual intensamente debatida na época, que representa um divisor de águas entre as pesquisas dedicadas à comunicação dominante e as preocupadas com a comunicação dominada.

Sob o impacto das ordens econômica e tecnológica emergentes, um novo embate teórico entre a crítica e a adesão foi travado. O inevitável caminho para um cenário mundial integrado tornava-se mais nítido até mesmo nos discursos dos não-alinhados e dos "terceiro-mundistas", que pregavam a assistência e a cooperação internacional em contrapartida a uma comunidade internacional ou a um sistema transnacional. Como resultado concreto da Nomic, surgiram esforços de criação e desenvolvimento de redes informativas internacionais alternativas, distintas e contrárias à transnacionalização, como o pool de agências de notícias dos países não-alinhados, a agência cooperativa IPS-Terceiro Mundo, a agência Nova Nicarágua, entre outras.

O processo que antecedeu e sucedeu a Nomic não pode, portanto, ser entendido fora do contexto histórico das novas relações Leste-Oeste do pós-guerra, onde o bloco de países "não-alinhados" exerceu papel peculiar; da descolonização iniciada nos anos 60, dando margem ao enquadramento geopolítico de um "terceiro mundo"; e das negociações Norte-Sul a partir da segunda metade da década de 70, cujo exemplo máximo de visibilidade é a conferência sobre meio-ambiente e desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro, em 1992.

Com o enfraquecimento financeiro e o esvaziamento político da Unesco - não por acaso coincidente com as acolhidas ās questões "terceiro-mundistas" e ās "não-alinhadas" - as organizações não-governamentais passam por um período de invisibilidade, ressurgindo no cenário mundial no final dos anos 80 já sob a sigla ONGs com novas questões relacionadas aos conflitos Norte-Sul, à intermediação dos interesses da sociedade frente ao Estado e ao mercado, e ao exercício da democracia plena (política, econômica e cultural).

No contexto brasileiro de reorganização da sociedade civil pós-ditadura militar, um conjunto de profissionais e instituições sem fins lucrativos encampa algumas das principais estratégias da Nomic. Propositalmente sem a mesma visibilidade dos sistemas hegemônicos, tais organizações constroem uma teia de intercâmbio de informações que se diferencia da comunicação de massa pelo seu caráter de difusão entre pequenos grupos com potencialidade multiplicadora (comunidades organizadas, lideranças locais, sindicais e políticas, universidades, meios de comunicação fora dos grandes centros urbanos etc), agregando pluralismo cultural ās mais recentes técnicas e tecnologias de comunicação. Caracteriza-se, também, pelo intenso fluxo informal de dados transfronteiras (entre ONGs de vários cantos do mundo interessadas nas mesmas questões).

Infovicinais

Desde o início da década de 90, porém, um novo nó desta teia vem ganhando visibilidade: a Rede AlterNex, integrante da APC - Association for Progressive Communications - e implantada em 1985 com apoio da ONU e aval do Ministério das Relações Exteriores. Através da rede, operada no Rio de Janeiro pelo Ibase - Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas -, voluntários e profissionais de ONGs, militantes dos movimentos sociais e de partidos políticos, além de pesquisadores acadêmicos e técnicos do setor público discutem problemas estruturais e conjunturais do país, acessam as bases de dados de organismos multilaterais, negociam suas divergências táticas e costuram alianças nacionais e internacionais no campo de lutas específicas, de interesse comum. É como se, paralelamente ās "rodovias digitais" das grandes redes de informação privadas, estejam sendo construídas estradas telemáticas vicinais de acesso público, altamente interconectadas, que possam servir de atalho para a chamada sociedade inteligente.

No entanto, a utilização da rede como meio de articulação de entidades da sociedade civil e profissionais "a serviço" dos movimentos sociais e populares ainda está muito aquém do seu potencial. Um indícador disso é a pequena parcela de discussões temáticas disponível em português (cerca de 30% do total das conferências listadas em fevereiro de 1995), o que exclui milhares de lideranças sindicais e comunitárias, professores de nível médio, técnicos de administrações municipais entre outros tantos "agentes multiplicadores" em potencial que deveriam ser incentivados a utilizar a rede.

A escassez de material em português restringe o tratamento de assuntos de interesse do usuário brasileiro e a análise crítica da realidade nacional ou mesmo de um olhar brasileiro sobre os problemas mundiais. No estado atual da rede, o que está sendo disseminado, primordialmente, é a visão de mundo de determinadas ONGs e movimentos sociais estrangeiros (sobretudo norte-americanos) e o pensamento das Nações Unidas sobre as relações internacionais e sobre importantes questões estruturais dos países pobres.

Uma das razões para essa situação é a reduzida atuação das instituições usuárias como provedoras de informação. A grande maioria ainda trata o AlterNex fundamentalmente como um serviço alternativo ao telefone e ao correio tradicional, ou seja, para troca de mensagens. As 22 conferências públicas do AlterNex escritas em português e/ou espanhol disponíveis em abril deste ano veiculavam tópicos providos por pouco mais de 120 instituições, desde a sua criação (a pesquisa foi feita a partir do tópico nº 1 de cada conferência), o que representa cerca de um terço das instituições não-estatais e não-empresariais cadastradas até então. Dessas, a grande maioria é formada por entidades da sociedade civil sem fins lucrativos (genericamente chamadas de ONGs), das quais pelo menos nove são ligadas a igrejas cristãs e cinco são estrangeiras (duas italianas e três latino-americanas). A distribuição geográfica dessas instituições segue a mesma concentração no eixo Rio-S.Paulo observada no cadastro geral de usuários, embora seja possível identificar outros pólos de disseminação de informação dentro da rede, como Brasília, Florianópolis e Recife.

Mas o potencial da rede como palanque eletrônico vem sendo aos poucos descoberto por instituições de âmbito nacional. A Central Única dos Trabalhadores (Cut), por exemplo, criou uma conferência própria em março de 1994, "voltada especialmente para os sindicatos brasileiros, mas aberta a todos os integrantes das redes da APC", com os seguintes objetivos: "permitir que as posições defendidas pela Central cheguem instantaneamente a seus filiados; submeter estas idéias à crítica dos dirigentes sindicais e dos que buscam a transformação social; e divulgar as lutas dos trabalhadores brasileiros".

Já o Instituto Civitas criou, em junho deste ano, um boletim eletrônico sobre o exercício parlamentar na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Semanalmente, a entidade divulga "a movimentação dos vereadores cariocas naqueles projetos de interesse popular ou onde os interesses públicos estejam em jogo". Além dessas iniciativas, vêm-se tornando cada vez mais freqüentes os apelos para envio de telegramas, fax, cartas ou telefonemas a parlamentares e integrantes de governo responsáveis por medidas consideradas anti-democráticas ou danosas aos interesses sociais e ao patrimônio público.

Trata-se, portanto, de um campo fértil de pesquisa transdisciplinar que envolve modelos de comunicação, organização do conhecimento, disseminação de informação, redes sociais e práticas políticas enfeixadas pelos desafios impostos pelas novas tecnologias da telemática, sobretudo agora, com a explosão do "fenômeno" Internet.

Neste cenário em que o discurso da globalização substitui o do transnacionalismo, o debate em torno de uma possível horizontalização dos fluxos de informação não pode mais se dar, meramente, em termos das desigualdades entre estados nacionais. O que está em jogo agora é o discurso de uma suposta cultura global, na qual a defesa do respeito à diversidade escamoteia a persistência das desigualdades e das exclusões, não mais confinadas nos cantões do "terceiro mundo", como uma propriedade particular dessas formações sociais, mas universalizadas pelo processo de "terceiromundização do primeiro mundo", como bem denominou Guattari.


(*). A autora:
Jornalista, professora do Deptº de Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF), doutoranda em Ciência da Informação pelo convênio Eco-UFRJ/IBICT.
Email: sal@ibase.br


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