Fatores Sociais e Culturais na Utilização Diferenciada de Redes Eletrônicas no Brasil: notas para discussão

Tamara Benakouche (*)


  1. No estudo dos impactos sociais de redes eletrônicas no Brasil —tema do Seminário —o primeiro ponto a ser questionado é o próprio uso da noção de "impacto" para se analisar os efeitos sociais de uma inovação técnica A noção de "impacto" supõe, de modo implícito, que a sociedade pode ser passivamente "atingida" por uma inovação que lhe seria "externa"; nesse sentido, atribui à técnica um conteúdo exógeno, não-social, ou seja, uma autonomia que a mesma não possui. A técnica não se produz fora da sociedade, sendo cada vez mais o resultado de esforços conscientes e dirigidos de grupos sociais específicos. Nesse sentido, é um produto social. A interação entre técnica e sociedade se estabelece a partir do momento em que as finalidades dessa mesma técnica são concebidas, e essas finalidades não surgem por acaso ou no vazio, mas são expressões da vida social, de demandas mais ou menos explícitas. Assim sendo, para se investigar os efeitos —esperados e inesperados —de uma inovação, sugere-se o uso do termo "implicações", na medida em que o mesmo reveste uma conotação de reciprocidade, de interação, de uma relação de mão dupla entre objetos e atores sociais.

  2. As inovações tecnológicas tem historicamente estimulado o imaginário social, levando muitas vezes os indivíduos a tentar "prever" mudanças revolucionárias —positivas elou negativas —que poderão vir a ocorrer a partir da difusão das mesmas na sociedade. Isto acontece atualmente com relação ās chamadas Novas Tecnologias de Comunicação (NTC), onde se incluem as redes eletrônicas. No entanto, o prognóstico no campo das Ciências Humanas é um exercício que apresenta inúmeras limitações; nesse sentido, para se evitar cair numa futurologia quase sempre inconseqüente, um procedimento aconselhável é procurar conhecer a evolução histórica de inovações similares. Assim, por exemplo, no caso das redes eletrônicas pode ser de grande utilidade conhecer como se deu, no Brasil, o processo de apropriação social do telégrafo, do telefone ou da televisão. Uma primeira descoberta a ser feita será, provavelmente, a de que essa apropriação não se fez sem problemas, nem de forma rápida, na verdade, o telefone, que começou a ser implantado nas cidades brasileiras no fim do século passado, e a televisão, inaugurada oficialmente no pais em 1950, ainda não são acessíveis a todos.

  3. Uma noção certamente indispensável no estudo das implicações sociais de qualquer inovação técnica é a de "apropriação social", entendendo-se por esta expressão o processo de aprendizado/domínio dos diferentes grupos sociais com relação aos usos dos objetos técnicos a que tem acesso. Em geral a apropriação social de uma inovação faz-se de forma diferenciada entre sociedades e entre grupos de uma mesma sociedade. Esta observação contraria a crença —mais difundida do que seria desejável —de que uma vez disponíveis no mercado, as inovações teriam as mesmas implicações em todos os lugares, ou seja, que seus usuários desenvolveriam universalmente as mesmas práticas. Esta é, porém, uma crença que deve ser criticada, devido ao seu caráter determinista. No âmbito das NTC, um caso que ilustra bem as diferenças de apropriação é o sucesso do videotexto (Minitel), na França, e seu fracasso nos outros países.

  4. Dentre as principais variáveis que condicionam as diferenças na apropriação das técnicas, podem ser citadas a condição sócio-econômica, os valores culturais, a idade e o sexo dos usuários, e ainda, certamente, sua cultura técnica anterior. Uma variável, porém, que não pode ser negligenciada é a própria performance da técnica em si isto é, seu grau de desenvolvimento: uma inovação que ainda não "funciona bem", que necessita de ajustes, terá muito provavelmente dificuldades quanto a sua difusão. Com relação ās tecnologias que se constituem em rede e oferecem um serviço voltado para o atendimento do grande público, duas questões específicas devem ser ainda consideradas: i) a capacitação funcional-administrativa dos seus operadores e sua competência política para mobilizar recursos —tanto materiais quanto simbólicos —favoráveis a sua implantação/expansão; ii) o desenvolvimento paralelo e articulado das "redes-suportes" e das "redes-serviços".

  5. No caso das tecnologias de comunicação, entende-se por "redes-suportes" as redes técnicas, ou seja, os fios, os cabos, os feixes de microondas, os terminais, as centrais de comutação, etc., por onde circulam e são processadas as informações; as "redes-serviços", por sua vez, dizem respeito aos serviços ofertados, is;to é, as relações que as redes-suportes permitem estabelecer entre seus usuários, estando nessa categoria o processamento remoto de dados, o correio eletrônico, o acesso a bancos de dados, etc. Esta distinção faz-se necessária, na medida em que explicita especificidades e competências. Com efeito, no estudo das implicações sociais das redes eletrônicas é de especial importância considerar o funcionamento das redes-serviços, pois são suas características que condicionarão a emergência e a consolidação dos seus usos. Dentre essas características, além da presença de recursos facilitadores à "navegação" —tais como procedimentos de auto-ajuda — destaca-se certamente sua diversidade, sua riqueza de opções. A consciência pelo menos dessa última questão é que permitirá que não se reproduza, no Brasil, o circulo vicioso que vem marcando o desenvolvimento das NTC onde elas vêm sendo implantadas: a demanda hesita em se manifestar de forma mais efetiva, devido à ausência de uma oferta variada que lhe permita fazer escolhas, e a oferta hesita cm se lançar de forma mais agressiva no mercado, em virtude da ausência de uma demanda que justifique os investimentos a serem feitos.


(*). A autora:
Doutora. Professora Titular do Depto. de Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Catarina.
Email: cso1tbk@npd.ufsc.br


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