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Dos estudos interessados na questão do computador como mediador na construção de identidade, o trabalho pioneiro de TURKLE (1984) é a referência fundamental. Sua "etnografia psico-social" da cultura dos primeiros usuários não deixa dúvidas de que os computadores não são apenas instrumentos voltados para fins utilitários, são também objetos evocativos: o computador desperta no usuário os mesmos mecanismos de projeção subjetiva que as manchas do teste de Rorschach (TURKLE:1980). A opacidade quanto ao seu mecanismo de funcionamento, e a ambigüidade e plasticidade dos seus usos levam o usuário a fazer do computador "a projection of part of the self, a mirror of the mind". À medida em que se tornam objetos de uso diário, mais que apenas projeção, os computadores passam a interferir no próprio processo de construção da identidade dos seus usuários:

Inicialmente TURKLE estudou grupos de crianças e jovens. Apoiada em conceitos de desenvolvimento inspirados em PIAGET, e elaboração de identidade inspirados em ERIKSON, detectou três estilos diferentes de relação com o computador, cada um mais característico de uma fase do desenvolvimento infanto-juvenil: crianças usando as máquinas para pensar a distinção entre o vivo e o não-vivo; pré-adolescentes motivados pela obsessão do controle; e adolescentes em busca de definição de identidade. TURKLE reencontra esses três temas (metafísica, domínio, e identidade) ao estudar três "subculturas" da informática: o grupo dos dedicados às pesquisas em inteligência artificial; a cultura hacker (programadores virtuoses no ambiente acadêmico do MIT); e os donos de computadores pessoais, a primeira geração de micreiros, tipicamente "technical hobbyists" congregados em clubes amadores. Suas etnografias das representações dos hobbyists e dos hackers (caps. 5 e 6), dominadas respectivamente pelos valores da transparência e do risco, impressionam especialmente pela enorme convergência com o que eu mesmo pude apurar a respeito do mundo dos micreiros e programadores brasileiros.

Seu último livro (TURKLE:1995) atualiza suas reflexões, num cenário de PCs já disseminados mais amplamente pela sociedade e conectados à INTERNET, adotando a dicotomia entre os "estilos" moderno e pós-moderno como grade interpretativa básica para a compreensão das atuais transformações culturais.